De todas as artes, o teatro é talvez, a mais estreitamente condicionada pelo momento cultural que a produz. E quanto mais válida, mas condicionada e mais expressiva dos fatores condicionantes. Todo dramatista que procurou alcançar ideias literários arbitrários e escrever fora do seu tempo foi irressarcivelmente condenado ao esquecimento: todos os grandes nomes do teatro universal, são acima de tudo produtos exatos do momento que viveram. As grandes obras que sobreviveram através dos séculos adquiram contemporaneidade diacrônica por meio de uma riqueza nascida do profundo conhecimento que o autor teve pelos homens da sua época. Pelo particular, ou seja, as historias que os cercam, as dores que viveram, atingiram resultados que são capazes de entrar em sintonia com homens de várias épocas que se aproximam mais ou menos do clima do momento da criação da obra.
Seja como for, mesmo as mais permanentemente contemporâneas dessas obras, sempre foram sujeitadas em suas remontagens, às dominantes culturas do momento de suas releituras. Quando o bardo elizabhetano escreveu Rei Lear, ou quando Lorca escreveu A casa de Bernarda Alba, ou quando Molière, enfrentou a corte de Luís XIV com seu Lê Tartufe, estavam em verdade, falando de suas realidades. Quem conhece o Grupo Máschara de perto, ou frequenta os ambientes palacianos de sua sede, sabe exatamente o que está em jogo na hora da cena, sabe o que está na poética entrelinha do texto.
A cada ano, o texto se afasta mais do simplório olhar que temos da passagem bíblica, para alcançar lugares de reflexão que fazem sentido aos atores mais próximos ao dramaturgo. " A cúpula de fogo" do Palacinho do Máschara decidiu falar do idoso, da mulher e da criança. Todos obviamente, variações de um mesmo Jesus. As personas que o habitam, já que ele é o senhor do presente, do passado e do futuro.
Ao seu redor, pairam atores de carreira, grandes, densos. Soma-se a isso uma equipe de não atores, que pisa no palco com garra de artista. É preciso assim como o Cléber Lorenzoni de Jesus, vestir a camiseta, mergulhar em sua realidade. É preciso que cada interprete vista a camiseta de seu personagem. "Seja ele" durante a temporada. É o que se espera ao menos dos grandes atores.
Na apresentação de Tuparendi, que mais aprecia um perímetro Grego, onde sacerdotisas e semideuses flutuavam, pudemos presenciar grandes atuações. Entregas estéticas e verdades pontuais. Não há como não mencionar a disponibilidade cênica de Antônia Serquevitio, a emoção de Margarete Medeiros, o esforço de Ana Costa o virtuosismo cênico de Renato Casagrande a triangulação pontual de Didy Flores. Clara Devi tem nos dado uma Maria de Magdalem interessante, algo diferente das anteriores que ainda não sei ao certo o que é. Meus netos que amam teatro, sempre se emocionaram nas cenas em que Jesus é vandalizado, mas acredito que na apresentação mencionada, alcançamos lugares muito potentes. Parabéns aos diretores de palco e coreógrafos de cenas. As aias da "noiva" precisam ensaiar mais a coreografia de sua entrada. Em alguns momentos o cerimonioso do espetáculo peca. Kaifaz pode diminuir a palidez. Andar menos pelo lugar. Ele é a mente, Anaz é o movimento! Parabéns aos iniciantes, estão muito dedicados. Thayla pode ensaiar mais a cena da noiva, embora tenha um olhar muito cênico. Alex precisa fica mais concentrado e Kevim, pode aparecer mais nas cenas. Aplaudível a dedicação da atriz Rosi Teixeira.
Emociona-me ver as cenas com os pequenos, principalmente porque estamos falando do futuro do teatro. Do palco, jorram momentos estéticos, mesmo quem não sabe o que está fazendo em cena, está sendo estético, graças a direção do espetáculo. Observai sua estética, tome ciência dela. Quisera eu ser uma atriz, não tenho talento para tal, mas observando cada movimento, cada ação, dá para ter certeza do quanto é valoroso cada lugar no palco. Cada personagem ou tipo mereceriam um texto inteiro. Desde a menina que carrega uma taça, até quem fica ao fundo parado. Tudo atua junto. Renan Queiróz abre a cena, impactante, ao lado de todo o elenco, e vemos dois diretores ali, primos, irmãos em lutas teatrais. Um símbolo forte para o teatro.
A mesma canção do prólogo volta no epílogo, com a doçura que deve ter o compositor que a escreveu. O texto final aprece um tanto exagerado. Triste demais... mas me deixei levar. E aplaudi demoradamente assim como o restante do público de Tuprendi. Parabéns a Ana Clara Kraemer e Douglas Maldaner por suas presenças de palco.
Para encerrar, um ultimo elogio aos familiares que apoiam todos esses artistas. É preciso sentir-se pleno, amado e apoiado para produzir tanto encanto, para pisar no palco com segurança e nos dar uma arte tão verdadeira.
Arte é Vida!!!!
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