sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Em cartaz O Menino do PAstoreio


 

1038/1039/1040-O menino do Pastoreio (tomos VI,VII,VIII)

                           Sempre que se decide falar sobre questões sociais ou assuntos polêmicos, é necessário observar se há capacidade de controlar situações, que possam sair do controle devido à incoerência ou o falta de domínio das mesmas.  Questões raciais nunca esquentaram tanto os debates como na última década quando parece ser procurar sanar o problema centenário com gestos palavras o posturas ditas corretas ou politicamente incorretas. O menino do pastoreio é uma que vais e transformando de acordo com as épocas, embora assim seja o olhar que devemos ter com qualquer obra. O mundo vai mudando e o teatro deve mudar com ele. 

                            Hoje em dia quando se fala de menino do pastoreio, há quem pense que não devemos mais falar dessa historia. Eu por outro lado, penso que são essas narrativas pesadas, que levantam debates, que devem ocupar o palco. Mas e quando se fala em teatro educação? 

                              O menino do pastoreio passou por mudanças entre a primeira apresentação do dia e a terceira. O que nos dá o exato tom de que o teatro é verdadeiro, vívido. As interpretações de Nicolas Miranda e Cléber Lorenzoni nos dizem isso o tempo todo. O jogo entre os interpretes de Izidoro e do Estancieiro acabam por agregar uma deliciosa triangulação. O clima das interpretações começou um tanto fraco, estreia de de Raquel Arigony e Antonia Serquevitio, foi durante o dia se aprimorando. Interpretações bonitas, fortes. Clara Devi, para quem os "cartola" torcem o nariz em alguns momentos por causa da dicção precária. O prólogo lindamente iluminado em contraste com as fugas de luz e os pontos sombrios do palco. A musica lindamente escolhida em contraste com as vozes baixas em determinados momentos. 

                             Renato Casagrande é um grande ator sobre o palco, sua personagem é bastante intrincada nesse espetáculo, pois representa o Brasil Colonial com seus senhores de engenho e suas senzalas. Talvez na busca por mais leveza, possa pesar nas emoções. Clara Devi e Antonia Serquevitio podem se dedicar mais na dicção e nos volumes. Raquel Arigony precisa propagar o sagrado de forma mais perspicaz. 

                                    A equipe técnica, se o espetáculo pretende cumprir-se enquanto produto teatral eficaz, deve ser maior do quem um único técnico fazendo som e luz. 

                                         Para encerrar, um prólogo bonito, mas as vezes exageradamente perigoso em um espetáculo infantil/educativo.  Talvez o termo educativo levante muito debate, mas quando se propõe a levar teatro para alunos da rede pública, você está falando de teatro educativo. O diretor que pausa uma cena para educar o público (e o faz com muita elegância), está sim educando. E isso é bom, educar através da arte. Mas é preciso tomar cuidado para não estragar o assado. 

                                       O Melhor: A triangulação dos anciãos em cena.

                                            O pior: O texto baixo para um espaço de teatro tão grande.

                                         

Ficha Técnica:

Dramaturgia e Direção de Cléber Lorenzoni

Elenco: Nicolas Miranda (***)

             Cléber Lorenzoni 

             Clara Devi (***)

             Antonia Serquevitio (**)

             Raquel Arigony (***)

              Renato Casagrande

Contraregragem:

             Fabio Novello

Portaria: 

            Laura Hoover

            Ricardo Fenner

Apoio:

            Dulce Jorge

            

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A carreira entre as fazendas Santa Fé e Angico - O menino do Pastoreio


 

Cléber Lorenzoni e Nicolas Miranda - Momentos intensos em O Menino do Pastoreio


 

O momento final de O Menino do Pastoreio


 

1037- Quem matou Aparecida (tomo 001)

                 Foi de uma enorme sagacidade, perspicácia  mesmo, quando o grupo teatral máschara desenvolveu a hierárquica projeção dos status relacionados aos artistas do grupo, pelo fato supostamente lógico, mas nem tanto, de que o trabalho dos membros de toda a equipe das artes cênicas ligadas ao grupo Máscara, são iguais embora com  a possibilidade dinâmica de aperfeiçoar-se, desenvolver-se e aprimorar-se. E essa deve ser sempre a busca de quem é do palco: melhorar, pesquisar, crescer...

                  Na noite da última quarta-feira um texto singelamente "esculpido",  esse é o termo que ele merece,  devido às tantas possibilidades estéticas, sentimentais e reflexivas. FerreiraGullar escreveu "Quem matou Aparecida"? a historia de uma favelada que ateou fogo as próprias vestes, em 1962, com a roupagem do CORDEL. O Concrestimo e o diálogo com a cultura popular, empregaram à Gullar um espaço único no estrelado céu de escritores brasileiros. 

                   Eu que não me recordava mais desse texto, me surpreendi com interpretações razoáveis dos atores status 2 e 3 Fábio novelo e Alessandra Souza. A premissa muito simples: textos de uma mulher sofrida de nome Aparecida e seu contexto enquanto criatura brasileira pobre do sexo feminino já nesta descrição todos os preconceitos e pontos de vista guardados dentro de nós em uma sociedade patriarcal e machista dão o tom do que se pode ver no palco na interpretação de Souza. Uma atriz de mordida... Uma atriz forte, visceral e que as vezes esbarra no piegas. 

                     O desenho de cenas é original, criativo. O ritmo intenso, bonito. Mas certamente era uma estreia, pois o aprumo, o cuidado,o alinhavo e a assinatura típicas do grupo teatral máscara não se fizeram presentes; era uma performance, foi nos dito mas havia nela princípios de começo meio e fim, básicos e necessários em um bom espetáculo. Mas parecia haver ao mesmo tempo uma despreocupação com o "espetacular". A intérprete é forte mas às vezes não canaliza a sua força e a transforma em peso, peso esse que se encontra em contraste com as tábuas leves do sagrado palco do auditório do Instituto Annes Dias. As energias retumbaram abafando o bonito texto de Ferreira Gullar. Ora precisamos e queremos atores e atrizes leves que quase não encostem os pés no chão. Mas a carga emotiva o desenho as linhas do corpo são típicas dos bons atores do Máscara, herança certamente de um trabalho que começa ainda na década de 90 com Dulce Jorge e vai se transformando. Fábio novelo faz as vezes de contra regra, diretor ator e ator contador: há uma base neutra que se transforma em várias figuras. Porém esta base neutra precisa de mais detalhe, uma construção maior. Um mérito muito bonito é a sutileza com que ele passeia pelo palco quase sem ser visto, enquanto a personagem de Aparecida assume a postura de atriz principal. 

                        Aparecida é um bom começo de algo que pode se tornar muito grandioso. 

                        Basta ter  sensibilidade..      


              Melhor: A coragem e disponibilidade dos dois atores sobre o palco

              Pior: A desorganização da equipe envolvida.



Fabio Novello

Alessandra Souza              

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

MXIX - A Hora da Estrela (tomo 3)

                      Eu sempre acreditei que o maior perigo, é não conhecermos a maldade do mundo, a maldade do homem. Assim é Macabéa , a personagem principal de A Hora da Estrela, Romance ou Novela-ninguém sabe ao certo- que vem se tornando uma obra clássica da literatura brasileira. Macabéa vem do mesmo lugar que foi lar de Lispector ao chegar no Brasil ainda menina. No Rio, ela vai aprendendo através dos que a cercam, que não há lugar para si. Seja pelas moças com quem divide o quarto, pela forma como a Dona da pensão a trata, ou quando é lembrada de sua inadequação, seja pela colega Glória ou pelo cruel namorado Olympico de Jesus. A veterana atriz Alessandra Souza dá continuidade ao trabalho que Kauane Silva iniciou em 2019, e embora tenha trazido toda uma nova bagagem, mantém a chama proposta pela direção do espetáculo. Agrega aí organicidade e talento.

                        A coerência da linguagem e a escolha das forças motivacionais dessa versão, passam longe de versões conhecidas como a filmagem de 1985. Aqui a "pegada" é expressionista e embora alguns colegas não compreendam ainda a proposta, conseguem propagar uma estética intensa e complexa. O palco para Cléber Lorenzoni é um espaço de desabafo e crítica, seus pontos de vistas ficam muito claros quando os atores conseguem cumprir o que se espera deles. 

                           O palco de Itaqui é imperial, e dá o tom correto e digno do trabalho do encenador. Acústica e aparelhagem só falharam no que tange a iluminação do espetáculo, que ficou muito aquém das capacidades com que o Grupo subiu ao palco em outros momentos. A trilha sonora embora maravilhosamente escolhida, esbarrou algumas vezes, talvez por nervosismo da técnica ou falta de prática no aparelho do festival. 

                             Quando li pela primeira vez a obra, ainda muito jovem, jamais imaginei aquelas figuras, tão triangulares, tão bem delineadas. Seres repletos de crueldades, capazes mesmo de empurrar alguém até a boca do precipício. O brilho do elenco feminino, o crescimento a olhos vistos de atrizes como Antonia Serquevitio e Caroline Guma, a sutileza do trabalho corporal de Clara Devi ou ainda a beleza com que atores antigos da trupe entraram em cena, foi muito bonito. Um espetáculo que tem para mima que admiro o Máschara, cara de família. Atores iniciantes, atores da velha guarda, alunos, artistas renomados, todos juntos colaborando para que a arte teatral se cumpra. 

                              O grande mérito do trabalho do Máschara para mim é a capacidade de fazer rir e chorar, um verdadeiro vendaval de emoções, de sensações. E as palavras finais ficaram em minha mente: O trabalho de atuação do público. Impecável!



                        O Melhor: O trabalho de grupo!

                        O Pior: As pessoas que não compreendem o que significa "grupo"


Alessandra Souza

Renato Casagrande

Cléber Lorenzoni

Dulce Jorge

Ricardo Fenner

Fábio Novello

Douglas Maldaner (***)

Clara Devi (**)

Antonia Serquevittio (***)

Caroline Guma (***)

Laura Hoover (**)

Raquel Arigony (**)

Ellen Faccin (**)

Nicolas Miranda (**)

Pedro Moraes (**)

Romeu Waier (**)

Eliani Alessio (**)

                               

                        

Prêmios conquistados no 19º FIT


 

A hora da estrela/card