domingo, 19 de agosto de 2012

Estreia de O Santo e a Porca -51º Cena às 7/a



Nós não vamos ao teatro nem para rir, nem para chorar, e sim para pensar, o riso e o choro são as táticas do teatro usa para nos tocar. Acredito que seja por isso que nós não encontramos  catarse quando vamos ao circo, ou aos espetáculos de dança. São lindos, são artísticos, mas a catarse está no solo sagrado do teatro. No recente filme de Meryl Streep, The Iron Lady, ela diz como Margaret Tatcher: os homens hoje em dia sentem demais, deviam pensar mais.  E foi estimulante pensar assistindo a obra de Suassuna, aliás autor esse que provavelmente nunca tenha sido apresentado em Cruz Alta.
O texto mais importante da obra desse autor é indiscutivelmente O Auto da Compadecida, mas o Máschara tem essa característica de buscar o escondido, o desconhecido e por que não dizer o mais difícil.  O Santo e a Porca tem enredo buscado em  “A comédia da Marmita” de Plauto.  Dando menos importância ao religioso como em outros obras do mesmo autor e sublevando as intrigas tão conhecidas na farsa.
E a farsa não é gênero fácil, muito pelo contrário. Requer uma extrema habilidade do autor, pois não permite soluções conciliatórias se é que o tom da farsa vai ser mantido durante o tempo todo. Nesse teste, Suassuna passa com distinção, e raramente temos visto a confusão causar riso tão espontâneo numa plateia, sem perder com isso, a medida de distância cômica de crítica que é a intenção do autor. Em todos os seus personagens cômicos e vigaristas, Ariano Suassuna é eminentemente satisfatório.  
Um espetáculo com mais de uma hora e meia é um grande arrojo do Máschara e a ceifa certeira da Cia. reestruturou o texto sem por em risco a compreensão da trama. A religiosidade e o materialismo correm lado a lado, talvez sendo necessário valorizar mais a presença do símbolo religioso já que santo e porca são os signos centrais da peça. O cenário evoca o visual nordestino e ao lado dos figurinos assinados por Cléber Lorenzoni nos permite embarcar na credibilidade do espetáculo. Embora haja certo desleixo com a unidade dos aparatos quando levam-se em conta os costumes masculinos. No entanto a acentuação dos vestidos firma a importância que a cena do troca-troca tem dentro da narrativa.
A trilha de Lorenzoni e Peres é insegura quando de sua presença e portanto parece inexistente. A iluminação executada por Gabriela Oliveira, precisa ser executada com maior precisão, quadro a quadro, cena à cena.  
Os altos cômicos e os baixo cômicos estão bem divididos embora atores deslocados carreguem personagens com status trocados. Ou seja atores de status III em personagens II e vice e versa podem por todo um espetáculo em risco.  Tive durante minha carreira muitos mestres, e uma de minhas mestras sempre me disse que a comédia tem pequenas explosões, brilhos pelo ar que vão pipocando, contagiando como uma febre que se pega pelo ar. E foi assim. O espetáculo foi chegando, foi envolvendo. Cléber Lorenzoni não pareceu fazer uma grande construção em cima de sua personagem, no entanto a verdade cênica de sua interpretação manteve o espetáculo pulsante, vivo, o domínio de suas cenas, as improvisações rápidas e certeiras, fizeram o público revolver-se nas cadeiras.  Dulce Jorge,  brilhante tão repleta de personagens dramáticos, nos deu uma Caroba intensa, verdadeira e cheia de trabalho corporal. Seu   entra e sai, e as piadas pontuais acresceram ao espetáculo um ritmo pulsante e instigante.  Um texto teatral, assim como uma canção, é escrita de acordo com a atualidade que a cerca, quando é recantada (a música) e reinterpretada a peça, ela precisa adaptar-se ao momento. Caso contrário quando alguém remontasse um Shakespare escrito no século XVI, teria apenas o objetivo de obra histórica. O Máschara trouxe para o palco detalhes contemporâneos que seduziram a plateia trazendo o público para dentro do espetáculo. Há tempos não via uma plateia tão presente e uma estreia tão pronta.
Gabriel Wink/tia Benona roubou a cena em vários momentos valorizando um dos personagens que seria  um baixo cômico, tornando-o praticamente o centro da historia. Noja, Teto divino, Abra-te sésamo, são apenas algumas das gags engraçadíssimas do ator. Ricardo/Eudoro esteve muito bem e conseguiu fugir de suas personagens anteriores, começou tímido e foi se soltando, precisa ainda apropriar-se mais e mais do espetáculo, ver e ouvir a fundo os colegas. Alessandra nos da uma Margarida moderna, menos mocinha e tola do que as mocinhas do século passado. Pouco a pouco com a reestruturação das cenas e novos textos que a equipe criou para as cenas sua margarida foi tendo uma personalidade e uma catarse mais intensa, visível. A frase “Papai, pare de ser tão preconceituoso e de julgar as pessoas pela aparência”, é perfeita e deveria ser somada a todas as novas versões de O Santo e a Porca. Luis Lara/O Pinhão, é um dos personagens que mais aprecio, pois deve trazer com ele toda a Paraíba, a terra de Suassuna. O ator Luis Fernando lara é além de generoso, humilde em cena, abraçando o jogo dos colegas, mas as vezes é muito sutil em suas construções como a atriz Dulce Jorge, precisa no entanto soltar-se mais e mais, jogar-se nas cenas. Principalmente no momento em que pensa ter ficado rico. 
Falemos agora de Renato Casagrande. Cléber Lorenzoni ao fazer a adaptação do texto, decidiu auxiliado pelo elenco e por mentes criativas de seus atores, optar por dar vida a um Dodó que para enganar Eurico, se finge de homossexual afeminado e não de homem feio e desengonçado. Essa opção pode ser divertidíssima e muito mais inteligente, no entanto pode também ser perigosíssima para o espetáculo.  A intenção do elenco era a de questionar o preconceito, abrindo margem para que o público visse por exemplo que não há  nada de errado na homossexualidade e que covardia e criminalidade sim,  seriam defeitos a serem julgados pela sociedade. Há porém algumas pessoas que costumam criticar a presença de personagens cheios de trejeitos em ficções por acharem que isso de alguma forma debocha da homossexualidade, fica a dica, se se há de respeitar a diversidade, há de se respeitar as formas de se contar uma historia. Discutir a diversidade é sempre uma forma de melhorar como cidadãos.  Renato Casagrande é um ótimo ator, com noção de espaço e tempos.
Há também o caso da maquiagem, muito bem concebida, um tanto escura demais em Caroba, o que pode ser uma proposta sim, no entanto há uma discrepância. É uma farsa e compreendo que o rosto moreno, com grandes bochechas rosadas venha equivaler ao rosto branco da comédia Tartufo que o grupo montou em 2001. Se assim for, perfeito. No entanto pescoços, pernas, pés e braços maquiados são falsos demais, ora, sabemos que os atores tem pele branca e alguns chegam  a alvura. Não enganem o público, dê-lhes sua leitura e ela fica ótima no rosto, artística, e não lambuzadas pelos figurinos e perna abaixo.
Depois de uma hora e quarenta e cinco minutos, O santo e a Porca chegou ao fim, mas o público não viu o tempo passar, pois a curva dramática foi perfeita. O Máschara montou dois espetáculos esse ano e dois em 2011, o trabalho é cansativo e cheio de barreiras, no entanto mal posso esperar por mais uma estreia.

Ficha técnica
O Santo e a Porca
Texto: Ariano Suassuna
Direção: Cléber lorenzoni
Elenco: Cléber Lorenzoni (***)
              Dulce Jorge (***)
              Gabriel Wink (***)
             Ricardo Fenner (***)
              Renato Casagrande (***)
             Alessandra Souza (***)
              Luis Lara (***)
Trilha Sonora: Cléber lorenzoni   Execução: Fernanda Peres (**)
Iluminação: Cléber Lorenzoni    Execução : Gabriela Oliveira(**)
Cenário: Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge e Luis Lara
Maquiagem: Cléber Lorenzoni e Gabriel Wink
Figurinos: Cléber Lorenzoni
Produção visual: Gabriel Wink
Divulgação: Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza e Ricardo Fenner
Recepção e Bilheteria: Nádia Furian e Angela Fréres Jacques
Produção: Script Produtora
Patrocinadores: Lojas Becker, Ponto do Livro, Lavagens V8, Kecoo Stúdio, Odontoclínica, Ópticas Orion, Cooplantio, Confeitaria Kituti’s, Imagens Produções, BicBanco, Lojas Tevah, Linke Supermercados, Pampa Turismo, Casa das Linhas, Academia Alta Frequência, Marcos Gruum.
                            


A Rainha

              

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A entrada de Angela Freres Jacques no Máschara- agosto de 2012


Atores        Tempo     Status  

                         1- Dulce Jorge (Fundadora)  ---->
2- Giane Ries
3- Claudia
4- Diogo
5- Cezar Dors
6- Thire
7- Marli
8- Wilson
9- Nadia Régia (1992/1994) I
10- Eduardo Gonçalves (1992/1995) II
11- Janaína Peroti (1992/1996)
12- Dão Dill (1992/1995) III
13- Vera Porto (1992/1998) IV
14- Fernandra Strainbrenerr (1996)
15- Altiva Soares (1993/1997) IV  + 2009
16- Katiússia (1996)
17- Claudia Cavalheiro (
18- Odacir Pena (1996/1997) II
19- Carolina Monteiro (1996/1997) III
20- Evandro Silva (1992/1994) IV
                             21- Cléber Lorenzoni (membro remido) I
22- Fábio Branco (1996)
23- Bibiana Monteiro (1996/1997) IV
24- Zenaide Perez (1996/1997) IV
25- João Paulo Perez (1996/1997) IV
26- Maiara
27- Paulo César Perez (1996/1997) IV
28- Alexandre Dill (1996/2006) I

29- Janiele Peroti (1996/1997) IV
30- Adriane Fiúza (1997/1998) IV
31- Adilson Sattes (1997) IV
32- Naiara (1996/1997) IV
33- Simone De Dordi (1997/2002) I --->
34- Luciano
35- Maria Amélia

36- Ariane Pedroti (1998/2003) III    
37- Fernanda Garrido (1998/2001) V
38- Cristiane (1999)
39- Leonardo Mattos (1999/2002) IV
40- Matheus da Rosa (1999) IV
41- Úrsula Macke (1999/2000) V
42- Guilherme Macke
43- Eduardo
44- Rosimere
                        45- Marcele Franco (1998/honorário) III
46- Fábio Novelo (2001) IV
47- Diego Barcellos (2001) IV
                        48- Ricardo Fenner (2001/____) III
49- Yanna Monge
50- Suzzete Siqueira
51- Cássius
52- Lauanda Varone (2002/2006) II
53- Pothira
54- Rafael Aranha (2003/2006) III
55- Daiane Albuquerque (2002/2006) III
56- Ana Paula (2002) V
57- Jorge Pittan (2002) IV

58- Guto Baugrathz (2002) V
59- Monique Vogel (2002/2003) IV
                       60- Luiz Fernando Lara (2002/ Honorário) III
61- Lílian Kempfer (2005) V
                       62- Cristiano Albuquerque (2002/Honorário) IV
63- Gelton Quadros (2005/2010 ) III
64- Kellen Padilha (2005/2007) II
65- Mirian Almeida (2005/2006) II
66- Ezequiel Mattos (2005) IV
                         67- Tatiana Almeida (2005/Honorário ) III

68- Fabiúla
69- Claudia
                        70- Gabriel Wink (2006/___) II  
71- Marciele Benittes
                        72- Angélica Ertel (2006/Honorário) II
73- Luiz Henrique Da Costa (2006/2008) IV
74- Jéssica Martins (2006/2007) V
75- Kauane Leite Linassi (2006/2007) IV
                        76- Alessandra Souza (2008/____) III
77- Roberta Corrêa (2008/2010) IV
                       78- Renato Casagrande (2008/____)II
79-Pamêla Canciani
80-Rodrigo Fabrício
81-Michele da Rosa
82-Diego Pedroso (2011)IV
83-Lucas Padilha 
84-Newton Moraes (2011)IV
85-Gabriela Varone (2011/____)V -honorário
                       86-Fernanda Peres (2011/____)IV
              87-Angela Freres Jacques(2012/____)V

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Esconderijos do Tempo - 50º Cena às 7


             Sábado a noite aconteceu a 50ª Edição do Cena às 7, e o público assistiu Esconderijos do Tempo, um espetáculo cheio de técnica e cheio de emoção. Mas antes de falar do espetáculo quero aqui falar de nossa cidade, que em ano eleitoral houve falar-se muito em apostas em todas as áreas, saúde, educação, e até cultura. E pergunto o que o poder público tem feito pelos artistas que promovem o Cena às 7 e o teatro. O teatro tem um poder incrível e transformador tanto para quem assiste quanto para quem vê. Até quando Cruz Alta vai deixar jovens artistas irem embora por que não investe em sua arte¿. Cidades do nosso estado tem planejamentos, organismos que apoiam e intercedem pelo artista. O que tem nosso município¿ Há quantos anos se houve falar na tal reforma de nossa casa de cultura¿ Não me importo mais se os políticos vão roubar ou não, mas será que lá no fundo eles não tem o mínimo interesse em fazer algo realmente para que nossa cidade não pare no tempo. Ok vamos oferecer saúde, para que jovens saudáveis dêem adeus  a nossa cidade e partam em busca de melhores condições de vida. Ok, vamos oferecer educação, para que todos se instruam e trabalhem, trabalhem e trabalhem para dar dinheiro em forma de impostos sem ter em troca o pensamento, o lazer, o questionamento e a filosofia.  Ok,  vamos dar como forma de lazer, o surgimento de bares e boites, para depois proibirmos a bebida, e reclamarmos que nossos jovens não produzem nadam e ainda colocam a vida em risco. O que há afinal de errado¿ Quando nossos filhos querem ser bailarinos ou atores, neguemos-lhes essas opções, e os deixemos expostos a crimes bem piores direcionados a jovens vazios e revoltados que nada tem como opção de vida além do trabalho.  O que estamos fazendo para que nossa cidade que já perdeu seu curso de dança deixe de perder coisas¿
          Ouçamos com atenção as intermináveis colocações explanadas nos púlpitos políticos e nos perguntemos quantas vezes tudo o que é dito já não fora dito. E ainda, lembremos de nossos gregos maravilhosos que  escreveram: Cuidado! Só se conhecer perfeitamente um homem depois de vê-lo no exercício do poder, senhor das leis.  O que queremos para nossa cidade¿ Os atores pensam, tem personalidade, assim como quem questiona um bom filme, como quem ouve a boa musica, como quem discute um livro, como quem vai ao teatro. O teatro não é apenas a arte da apreciação, não se sai do teatro com os olhos marejados de lágrimas se algo não mudou dentro de sí. A tal catarse. Se queres sair do teatro maravilhado pela iluminação e pela movimentação, vá ver circ di soleil, ou aos grandes musicais da broadwai, se quer apenas rir, vá assistir um desses espetáculos que cobram trinta reais, e oferecem ao público um microfone, uma iluminação porca, e um monte de piadas que nossos pais meio bêbados em churrascos de família conseguiriam certamente bolar com ainda mais mérito e melhor pronuncia. Vá ao teatro para pensar, para deixar de ser vazio, para debater ideologias e para que no dia de dar seu voto não seja apenas uma marionete votando em quem pode lhe dar por alguns meses algum tipo de melhoria passageira e supérfula. Nossa cidade tem quase duzentos anos. Há de alguém perceber que não pode simplesmente portar-se como um vilarejo do interior. Há cada dia há mais mercados, igrejas(religiões), lojas, a cidade cresce e nossa insatisfação tem que aparecer para que as coisas mudem.
          Nossos artistas parecem satisfeitos com o quantidade reduzida de espaços. Com a falta de apoio, com a necessidade de trabalhar fora para buscar o sustento. E nossos políticos continuam falando em cultura, esquecendo que bailarinos, músicos, atores, pintores, escultores etc... fazem arte! E a arte depois de um tempo vira a cultura de um povo. Pois bem, que espaço damos para nossa arte¿
         Domingo a noite assisti Esconderijos do Tempo, impecável, maravilhoso. Em uma cadeira gelada, em uma sala sem o mínimo aquecimento, uma vergonha para os grandes grupos que vem de fora. Sem urdimento, sem rotundas, com camarins improvisados. Sem varas, sem cortinas. Um teatro para Cruz Alta por favor, nossos filhos agradecerão.  Sim devemos nos alegrar pela linda Casa de Cultura que temos, mas isso não é motivo para acomodarmo-nos e esperarmos que ela desabe sobre nossas cabeças.
        O Máschara foi brilhante, por sua interpretação, por seu texto. O Máschara foi incrível em mais uma vez oferecer teatro em troca de tão pouco.  Teatro para pensar, discutir, raciocinar. Raciocinar da mesma forma que as vezes esquecemos de fazer por nossa cidade. Então raciocinemos mais, vamos ao teatro.

Alessandra Souza ***/**
Dulce Jorge ***/**
Renato Casagrande **/***
Ricardo Fenner */**
Luis Fernando Lara */**
Cléber Lorenzoni **/**
Tatiana Quadros */**
Gabriel Wink **/***
Angélica Ertel ***/**
Fernanda Peres **/***

                                           A Rainha