quinta-feira, 16 de abril de 2026
1338- Lili Inventa o Mundo (tomo 131)
Desde que surgiu em 1992, o Máschara sempre teve que se adaptar, adaptar às lutas, as mudanças... Em 1999, Lorenzoni passou a dirigir espetáculos, era ainda muito jovem, e não imaginava tudo o que viria pela frente. O Máschara desenvolveu em meio a muitas batalhas, a capacidade de estar em quaisquer palcos, com quaisquer públicos. Isso oferece a capacidade rápida de os artistas mais velhos adaptarem-se. Ao chegar em um espaço, eles rapidamente compreendem os déficits do local, em instantes soluciona-se muitas coisas. Já vi o grupo distribuir mais de 500 cadeiras em uma apresentação em Vicente Dutra. Já vi o grupo cobrir janelas com tecidos e muito papel pardo. Já vi o grupo improvisar figurinos em Caxias do Sul. Já vi o grupo ensaiar em uma praça, quando ficou sem espaço em 2000. Essa capacidade, faz com que o teatro desses artistas consiga estabelecer-se em qualquer situação. E isso deve ser buscado e aprendido pelo elenco mais novo, que pode esquecer que teatro é luta...
Quando os atores se veem e veem seu público, o espetáculo cresce, e toma conta de todos, envolve e interessa. Na manhã de sábado, Lili Inventa o Mundo subiu ao palco, do Centro Cultural de Soledade, e a absorção do clima do espetáculo, foi viva, plena. Lili é uma peça para crianças, no entanto o histrionismo de alguns integrantes (personagens) consegue prender a atenção de todos. Ao longo de quarenta e cinco minutos, versos e prosa e Quintana, são executados em forma de canções e o resultado não poderia ser outro, que não longos aplausos sem fim. As crianças brincam com cores e movimento, os adultos se envolvem e o espetáculo acontece. Com um cenário simples, figurinos multicoloridos, e detalhadamente planejados, toda a atenção vai para o lúdico proposto pela direção.
Entender um elemento cênico como código teatral, é vê-lo, ao mesmo tempo, de duas formas: como parte de um sistema com outros códigos e como, o próprio elemento. Esses momentos perpassam muito o trabalho do Máschara. Códigos humanos, elementos não concretos as vezes, mas muito vivos na psique humana. Lili Inventa o Mundo usa muito do conhecimento universal relacionado à literatura. Bruxas, feitiços, heróis... tudo vai se misturando em uma salada mista, que carrega códigos talvez não compreensivos a um primeiro olhar. Assim é por exemplo com a "santa", que na verdade é a maior de todas as fadas, mas que fica muito claro que estamos falando da "mãe de Jesus". O espetáculo tem uma simplicidade muito efetiva, vê-se isso na transformação de Mathias, e deve ser assim por que a poesia também é simples, tanto em pronuncia quanto em criação.
O elenco tem um trabalho corporal formidável, colunas que sobem e descem, usando níveis, trabalhando assim ritmo energia e força, condensados em narrativa física. O trabalho vocal criativo de Renato Casagrande salta aos olhos, e a técnica fonética de Lorenzoni, seguram momentos em que suas cordas vocais tendem a falhar.
Interessante lembrar aos artistas, que seu corpo, voz, expressão, energia, são seu equipamento de trabalho, por isso, Stanislavski já aconselhava atores e atrizes a cuidarem profundamente de seus corpos. Ele é o maior elemento cênico.
Guma esteve mais calma na ultima apresentação, mais inteira. Teixeira esteve muito bem como Rainha das Rainhas, mas pode trabalhar mais a expressividade facial. Devi deve continuar buscando o âmago de liderar um elenco. Serquevitio deve encontrar mais recurso de sua personagem.
Foi sem duvidas uma linda manhã de espetáculo.
Arte é Vida
A Rainha
terça-feira, 14 de abril de 2026
1337- O Incidente (tomo 101)
Veríssimo e Quintana foram do interior, para a capital, fizeram suas carreiras na área da literatura, conheceram-se, tornaram-se amigos e prosperaram. Ambos trabalharam na editora globo, nasceram um em 1905, o outro em 1906. Vi várias vezes Érico caminhando pelas ruas do bairro Petrópolis com sua esposa Mafalda. Mario, eu vi andando pela praça da Alfândega, com seu jornal abaixo do braço. Desde 2006, para o Máschara, ambos sempre andaram muito próximos, muitas vezes em um mesmo dia, o grupo levou ambos para o palco. Dois escritores gaúchos, com seus trabalhos valorizados e sua literatura respeitada sobre o sagrado tablado. Em Soledade, Mario foi honrado à tarde, Érico à noite. Os sete mortos subiram ao Palco do Centro Cultural, vindos por um corredor escuro, com uma plateia curiosa e interessada. A Shirley Terezinha de Clara Devi já havia aberto a cena, com um bife bem pronunciado, mas fora do microfone. Aliás, quase todo o elenco teve problemas com os microfones, e ao mesmo tempo tem dificuldades em manter a estrutura da voz, com estrutura suficiente para alcançar o fundo do auditório. A ideia não é gritar até a voz chegar na última parede do prédio, mas imaginar que a voz é uma pedra, que deve cair lá no centro da plateia como se caísse em um lago e ir esparramando-se em pequenas ondas. Atores e atrizes não se acostumam com a possibilidade de aquecer a voz antes de entrar em cena. Porque?
O teatro, difere-se das outras artes por que é mutável. A bailarina tenta a cada noite acertar seu solo, sua coreografia... A cantora tenta alcançar a nota mais aguda, o pintor tenta aperfeiçoar o traço, já o intérprete, deve trocar, comunicar, sentir o espaço, sobretudo, viver o momento. Ora, apresentar Verissimo para um público de adolescentes em uma escola na capital é muito diferente de apresentar o mesmo Verissimo em uma escola agrícola no interior, e diferente de apresentar no teatro São Pedro para público de teatro, é apresentar para professores do interior que não tem costume de ir ao teatro. E essa é a peça fundamental para compreender o que é o teatro, qual sua função na sociedade.
Dunga, Antônio Carlos Brunet, um grande crítico teatral, dizia que se o ator ficar omisso a um holofote que cai durante uma apresentação, se ele não se manifestar, fingir que não viu ou não envolver o holofote em sua cena, o público pode ir embora, não são atores preparados. É preciso sentir o público indo embora, sentir quando as pessoas perdem o interesse na cena, perceber um balão que estoura, perceber uma luz que muda. É essa falta de percepção que faz tantos atores e atrizes permanecerem no escuro em cena. Eles simplesmente não sentem a luz, o brilho, o calor do holofote. Digo holofote por que em meu tempo de jovem, dizia-se holofotes. Hoje em dia há uma infinidade de novas possibilidades, ainda assim atores são mal iluminados.
Exemplo disso, foi a cena de Erotides que deveria ter ficado toda iluminada de verde, no entanto a geral acessa manteve-se aberta. O incidente de Antares está acontecendo no palco de um teatro de Soledade, ou em Antares? O ator que pensa que está em Antares, está seguindo Stanislavski de forma equivocada. Esse é o grande metateatro do existir cenicamente. Os atores abrem uma comporta, um portal, que conecta o aqui e agora com o momento narrado na história e esse ato cria a força de um hiato na existência.
Lorenzoni tem uma perspicácia em trazer um mundo de signos para a cena. Isso lhe dá uma camada a mais de atuação. No entanto, o percebi cansado, distante. Casagrande fez uma cena linda, que poderia ter mais silêncios; a trilha sonora ficou toda abaixo do volume necessário para auxiliar na catarse; o sutil novo visual de Pudim, foi muito expressivo. A pausa de Maldaner após sua fala, poderia ter sido mais longa, mas Guma perdeu o tom da piada.
Em 1923, Ricciotto Canudo propôs o Manifesto das sete artes, a partir da hierarquica visão de Hegel; para o teórico as sete artes são: arquitetura, escultura, pintura, música, poesia, dança e cinema. Anos mais tarde ao ser questionado quanto a ausência do teatro na lista, ele respondeu: O teatro não é uma das sete artes, não pode ser visto como uma delas, pois ele carrega em si, a cada espetáculo, estudo, ou ação, códigos universais de todas elas. Há em um simples espetáculo: o estudo da escultura no físico dos atores; há a pintura, no banho de luzes e no figurino dos atores; o texto do dramaturgo é recheado de poesia; parte da musicalidade o próprio texto em consonância com as canções empregadas; as linhas geométricas da arquitetura passeiam por cenários; e é uma dança que movimenta atores de um lado ao outro pelo palco. O cinema, é interpretação com suas regras de Stanislavski; ou seja, o teatro é a mãe de todas as artes, ele tira a arte de seu lugar muitas vezes inerte e a trás até o peito, à mente, à alma do expectador. O teatro é como José do Egito, cercado por seus irmãos, transmutados em feixes de trigo, em seu sonho.
Para encerrar, quero elogiar a postura, a entrega e a força dos atores de O Incidente, carregando um espetáculo há mais de vinte anos em cartaz. Vida longa ao texto de Verissimo! Vida longa ao Máschara!
O Incidente (2005) - Texto e Direção Kléber Lorenzoni
Dr. Cícero Branco(-)
Dona Quitéria Campolargo (**)
Professor Menandro Olinda (-)
Barcelona (**)
Erotildes da Conceição (*)
João Paz (**)
Pudim de Cachaça (**)
Shirley Terezinha (**)
Equipe técnica
Kleberson Ben (*)
Ana Clara Kraemer (**)
Roberta Teixeira (**)
sábado, 11 de abril de 2026
1334/1335/1336 - Lili Inventa o Mundo (tomos 128/129/130)
Lili Inventa o Mundo, completou esse ano, 20 anos de trajetória. Mais de um cento de apresentações, uma escola de teatro para atores e atrizes. Em Lili, o público entra em contato com o clichê do teatro infantil, "palhaços", bruxas, feitiços e ouras peripécias que faziam muito sentido no universo fantasioso de Quintana do século passado. Talvez seja exatamente essa energia que prende o espectador, como se fosse uma festa dos anos oitenta, ou um revival. Na primeira inserção do dia, os atores pareceram fazer um esforço, quase sobre humano para que suas vozes alcançassem todos na sala de espetáculos. As vozes de Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande sobressaíram-se, com potência e desenho, no entanto o restante do elenco precisa trabalhar as técnicas, aquecer as cordas vocais antes do Mise em scène. Existe uma voz própria que é de palco, é preciso encontrar em si essa voz. Sai-se do teatro bastante satisfeito com o visual colorido de Lili Inventa o Mundo, figurinos com uma coerência na união entre tantas texturas, a iluminação de Junior Lemes, o cenário, tudo casando perfeitamente. Claro que havia no iluminação um problema de mapeamento de palco, com praticamente duas áreas a serem iluminadas. Os atores sofreram com isso. Alguns atores e atrizes não percebem a luz, mas ouvem a trilha sonora, mas aqueles que são mais sensíveis a estética ao seu redor, acabaram por ficar divididos, procurando o melhor foco. O ponto alto, no entanto, foi o jogo cênico, com canções que embalaram a narrativa de forma inteligente e viva. A primeira apresentação do dia, nos pareceu um ensaio geral bem feito. Ouviu-se de boca pequena, que a equipe estava receosa, com pouco ensaio, com medo de não dar conta. Deram! A segunda apresentação foi também virtuosa, nessa a atriz Roberta Teixeira conseguiu aparecer na cena, seu olhar e a tentativa de uma expressa malícia, contrastaram com seus primeiros momentos no palco, quando é uma contadora/boneca. Faltou desenho em Serquevitio e talvez, se essa fora a escolha da direção, falsete. A cena de transformação nos ganha, pela ludicidade e simplicidade com que Casagrande conduz a personagem Mathias. Sinto falta de mais versos e rimas do próprio Quintana. Cada ator e atriz poderia decorar as rimas de Pé de Pilão e usar em improvisos: "Fazia tanto barulho, que o pato ficou engulho. Pisou no bico do pato: - Eu também quero retrato! - No retrato saio eu só, para mandar a minha vó! A discussão não parava e cada qual mais gritava.
Lorenzoni usa muito o público a seu favor, Devi pode ouvir mais, ouvir é a palavra do dia. Quando você respira e ouve os colegas, o jogo teatral e estabelece. A encenação com microfones deve ter sido extenuante aos atores, ruídos, fugas de ar, ruídos abruptos, tudo colaborava negativamente. Somente na terceira apresentação do dia, nos foi possível embarcar na aventura, e ainda que tenha sido um pouco longa, nem a saída do público em função de ônibus, diminuiu a funcionalidade cênica do espetáculo. Ouvi alguém dizer que Lili pode estar chegando ao fim, uma pena. É um desses espetáculos que sempre toca, sempre chega, sempre tem algo a dizer.
Eu quero ser para sempre criança. Para sempre criança... Engraçado, que essa frase se conecta com a cena da avó de Jesus em A paixão de Cristo. Acredito que o dramaturgo esteja tentando dizer algo para o público. Será que a vida adulta o abala? Será que o menino não quer crescer? Sabe-se que o velho solitário que andava pelas ruas de Porto Alegre com um jornal embaixo do braço, nunc apode ser realmente uma criança...
A arte do Máschara cumpre sua função, como um teatro que usa da variedade para engrandecer seus artistas, que cria desafios para alcançar o aprimoramento do trabalho. O elenco que participou das três apresentações de Lili, certamente não será mais o mesmo. Na ultima apresentação do dia, Clara esteve no ritmo necessário. Não sei se foi de proposito interromper Lorenzoni quando ele e Malaquias estavam se preparando para dormir, mas a cena funcionou muito bem. Guma pode se abaixar mais para a esquerda quando adormece e Teixeira ficou atrás de Devi na "dança velha". Clara precisa se ater às curvas do espetáculo.
Parabéns por esse retorno, acredito que Lili não subia aos palcos desde 2024, foi um presente à Soledade e um presente necessário à poesia!
Lili Inventa o Mundo
Texto : Livre adaptação de Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, a partir da obre de Quintana.
Cidade: Soledade
Elenco: Clara Devi, Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande, Carol Guma, Antonia Serquevitio e Roberta Teixeira









