quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Depoimento sobra e oficina ministrada por Raquel Arigony Prates


Os acordes do corpo e os mil caminhos a serem galgados por um artista em busca da compreensão de seus movimentos. – Sistema LABAN/BARTENIEFF  através da pesquisadora Raquel Arigony Prates.

 

                Seis encontros para se mergulhar nos ilimitados viesses do palavreado corpóreo, pode parecer muito para quem vê o irmão corpo como um amontado de músculos, ossos e cartilagens. No entanto para quem compreende ou ao menos questiona-se quanto a pluralidade desse misterioso equipamento de comunicação, de troca, e de efervescência, seis noites para visualizar a consciência corporal em cada entroncamento é apenas um ponta pé, o inicio de uma motivação muito maior.

Como ator, debato-me sempre naquilo que busco enquanto comunicador, nas possibilidades que tenho a minha disposição. “Segundo Barba, a antropologia Teatral é o estudo do comportamento humano quando o ator usa sua presença física e mental em uma situação organizada de representação de acordo com os princípios que são diferentes dos usados na vida cotidiana”.  Enquanto diretor, essa premissa de Barba sempre me acompanhou e isso encontra eco na caminhada proposta pela oficineira Raquel Prates, que não mediu esforços para abrir portas, apresentar chaves, lançar interrogações e levantar questões em nosso cérebro que respingavam em nossos músculos e articulações.

Durante nosso mergulho por uma Labananálise, Raquel nos revelou gotas generosas dos “Fundamentos Corporais Bartenieff”: qualidades de movimento, formas cristalizadas, a eucinética e ainda diálogos acalorados de “dentro para fora”. Obviamente esse muito adquirido é pouco quando voltamos nosso olhar para as extensas pesquisas de Rudolf Van Laban. Tentamos desmistificar juntos, o retrógrado pensamento enraizado em alguns de nós, de que dança e teatro sejam caminhadas distintas, talvez a dança seja um teatro sem falas. Ora, o mundo contemporâneo carrega consigo um contexto diferenciado no que tange a área das artes, as circunstâncias históricas, sociais e estéticas, conferem ao artista-cênico, uma postura versátil, diversificada e ousada. O artista do século XXI não se contenta em levar ao palco um obra básica, restrita, pelo contrário, ele se nutre das mais variadas formas de interação, matizes e técnicas. Para isso ele busca em Barba, Meyerhold, Decroux entre tantos outros, suas versáteis análises do pensar cênico.

Raquel Prates elenca alguns exercícios para ir nos dissecando e nos propõe um olhar para o interno e também para o externo. Tudo é feito com calma, respeito ao tempo de cada aluno e principalmente de forma a não saturar nossa mente. As propostas vão fluindo em meio a eloquentes diálogos que aludem e informam.

No primeiro encontro os sentidos são despertados de forma a ficarmos ligados, prontos à tudo o que iremos receber de fora para dentro. Ultrapassada essa primeira fase, chegamos ao Espaço Tridimensional ao Redor do Corpo, ou seja, nossa Cinesfera.

Nossa vivencia teatral adaptou rapidamente, desenvolveu caminhos, indagações e reações nesse primeiro estudo e o mais interessante foi encontrar em nossas cinesferas, muito de nossa vaidade. Ou seja, somos um único ser, que se comunica, reage, cria de acordo com um todo.

Nas qualidades dinâmicas, o jogo teatral falou muito alto e variamos entre pesos e intenções. A oficineira nos proporcionou criar, desenvolver coreografias e mostrou-se sempre sensível as dificuldades e espontaneidades de cada individuo. A seguir, Fluxo, Camadas e Forma. Uma busca por algo novo, por um gesto, por uma inspiração, pela descoberta do genuíno e do autêntico.

Os aprofundamentos propiciados pela pesquisa e conhecimento de Raquel Prates encontraram sim barreiras, nossos corpos, ainda que atuantes, desenvolvem como todos os corpos, vícios e robotizações. É preciso sensibilidade, curiosidade, vontade e por que não dizer, humildade.

Ao fim dessa primeira etapa, a percepção de que a observação junto as linhas e formas do nosso existir em meio ao espaço, promovem uma consciência de nossas possibilidades motoras e psíquicas, torna-se a maior conquista. No plano artístico, ela gera uma maior conexão com nosso “eu” interior, e elenca um artista ainda mais preparado para o exercício da comunicação.

 

 

 Cléber Lorenzoni – Diretor de Teatro

Pelas ruas de Cruz Alta


Preparativos ao ar livre em 2013


O Natal vem chegando, vamos nos reinventar?


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Resenha de Renato Casagrande a partir dos dramaturgos O'Neill, Albee e Williams

“O passado de uma pessoa pode se tornar seu destino”
                                                                                                      Eugene O’Neill

Descobrindo as origens de um dramaturgo poderemos compreender melhor o sentido de suas palavras em sua obra, sua inspiração e até mesmo seu “desabafo”.
Aceitei o desafio de desvendar os imortais O’Neill, Williams e Albee. Ambos tratam em suas obras sobre a sociedade norte-americana, tentam questionar ou até ironizar o tão desejado sonho americano, com personagens totalmente avessos a esse ideal. Seus personagens sempre são psicológicos em graus que oscilam entre a loucura ou até mesmo a uma vida completamente fracassada. É necessário mencionar que O’Neill de certa forma alcançou o apogeu com o que se tornaria o teatro realista norte-americano. Tennessee não descobriu ou criou algo novo, mas redescobriu por si só o que já fora descoberto. O realismo permanece o estilo norte-americano, o mérito às vezes, foi fundir o realismo com a imaginação, o que Williams explorou muito bem.
Me inteirando das biografias, chego a conclusão de que os três dramaturgos em questão, encaixam-se no gênero teatral denominado Realismo-Trágico. Peças decorrentes do mundo real, sem fantasias ou misticismo (embora seja impossível viver sem) mas com grande escala de tragédias pessoais, tais como: vícios, suicídios, assassinatos ou mesmo insanidade. Personagens convincentes no mundo de hoje, usam dos instintos humanos, referência da tragédia grega, para seguirem com sua jornada.
Eugene O’Neill traz uma força em sua obra, sentimentos profundos e uma verdade interna, inovando e mesmo criando uma nova ideia própria de tragédia. Revela personagens mais violentos que de Albee e um pouco mais semelhantes com os de Tennessee Williams; esse por sinal demonstra personagens mais solitários com conflitos internos à beira da explosão. Edward Albee não fica longe de personagens solitários e/ou trágicos, lembrando sempre de que foi diretamente influenciado por O’Neill, em sua obra podemos ver claramente o choque entre o sonho americano e o “mundo real”.
Analisando a vida e mesmo a trajetória de tais dramaturgos, chego a conclusão de: o que realmente os une - além de sua obra o que é indiscutível – são suas vidas. Portanto declaro aqui, mesmo com meu pouco conhecimento de tais “monstros”, que vejo-os como dramaturgos autobiográficos. E por quê? Simplesmente pelo fato de suas personagens possuírem características próprias de seus familiares. O’Neill e Williams foram internados em sanatórios, devido a dependências químicas. Renegados pela sociedade americana por serem opostos ao padrão da sociedade. Um tentara se suicidar, outro morrera por algo tolo, outro viveu a vida inteira tentando se encaixar em sua família. Todos possuem histórico de família conturbada.
Albee era adotado, e não teve muita intimidade com seus pais, isso reflete-se em sua obra, personagens com carência de sentimentos. Em ”A História do Zoológico” vemos o duelo entre dois indivíduos, o Zoológico em si é a sociedade, com seres presos em suas jaulas separados por grades impedindo a comunicação, tornando assim quase impossível vencer o individualismo e mesmo a solidão. Será que não se refere ao seu convívio familiar? Pensemos...
Podemos ver claramente a irmã de Tennessee, Rose, incorporada como Laura Wingfield em “À Margem da Vida”. Rose fora diagnosticada com Esquizofrenia e passou por uma lobotomia que a incapacitou para o resto da vida. Alguns estudiosos intitulam Blanche DuBois em “Um bonde chamado desejo” como uma leve inspiração de Rose, será? Pensemos...
O’Neill teve uma vida conturbada, com casamentos fracassados e uma tentativa de suicídio em seu histórico, uma mãe alcoólatra que também tentara o suicídio, filho de atores, demorou a se encaixar na sociedade, e não sei ao certo se conseguiu. Tuberculoso assim como sua mãe, teve Parkinson e morreu decorrente a tuberculose que o acompanhou durante muito tempo. Curioso pensar que sua mãe e ele tentaram o suicídio devido a insatisfação que sentiam da vida, mais curioso ainda é que seu filho teve êxito neste desejo. Agora eu pergunto: A arte imita a vida ou a vida imita a arte?
Outra ressalva que tenho a fazer é que todos os três trataram em suas obras de assuntos considerados tabus, abusaram da ortografia para introduzir no meio literário de personagens homossexuais, dependentes químicos, e até mesmo diferenças raciais que eram demasiadamente inseridas na sociedade norte-americana da época e comum até nos dias de hoje em quase todo lugar. Apesar de notarmos o quanto a vida e a obra de cada dramaturgo estão unidas, não pretenderemos explicar a obra por meio da vida de um autor, uma vez que na obra ele seleciona, transcende, distorce os fatos de forma que eles signifiquem muito mais do que na vida.
Uma pena que esse teatro anunciava um declínio nos palcos norte-americanos que não conseguiria superar o apogeu do cinema tão cheio de surrealismo e fantasia.
Concluo aqui que o legado de tais nomes é a tragédia humana em meio a uma sociedade conformada com um padrão de vida que não cobre e nem permite pessoas avessas ao seu ideal e que se possível seria discutível a possibilidade de banimento de tais seres, um mundo onde os autômatos teriam vez e que o fracasso não é permitido e nem a desistência. Agradeço à Eugene, Tennessee e Edward, pois com eles podemos ver um mundo real sem fantasia ou utopia, e às vezes isso pode ser essencial para questionarmos nossas vontades e ideais e até mesmo compreendermos melhor nossa função como sociedade.


Renato Casagrande

ESMATE 10/09/2016


quarta-feira, 21 de setembro de 2016


Resenha crítica após pesquisa sobre os dramaturgos Racine, Corneille e Molière e seus aspectos em comum.



Sobre humanismos e realismos

            Falar aqui de Jean Baptiste Racine, Pierre Corneille e Jean Baptiste Poquelin (Molière) e seus aspectos em comum é um grande desafio. À primeira vista as semelhanças são óbvias. E em profundidade? O que encontramos nas entrelinhas de suas histórias? Buscarei resumir um pouco do que encontrei e do que me instiga a buscar mais.
            Comecemos, então, pelo óbvio. Estes três nomes representam clássicos da dramaturgia francesa. Contemporâneos (sec. XVII), tiveram seus caminhos entrecruzados. Foram mestres de sua arte. São referências até hoje. Por isso, clássicos; por isso, grandes.
            Corneille é considerado o pai da tragédia francesa (embora também tenha se aventurado pelas comédias na primeira fase de sua carreira). Sua força ganhou até um adjetivo: corneliano, com uma ampla significação, fazendo referência a vontade, heroísmo, densidade literária, grandeza da alma, integridade e oposição irredutível aos pontos de vista.
            Já Molière é reconhecido como fundador indireto da Comèdie-Française. Dedicou-se à dramaturgia e à atuação. Mesmo tendo preferência pelas tragédias, tornou-se famoso por suas farsas.
            Racine triunfou com suas tragédias. Foi considerado o criador moderno de tragédias míticas (fortemente influenciado por Eurípides). Ao contrário de Corneille, que celebrava a força do homem, Racine, da ordem e sensibilidade, dramatizava a fraqueza, apontava a trágica vitória da paixão sobre a razão. De uma maneira diferente Molière também apontava para as falhas humanas: voraz crítico da hipocrisia através de suas sátiras.
            Além de conterrâneos, contemporâneos e grandes clássicos da dramaturgia, em que mais convergem esses autores?
            Curiosamente os três tiveram formação católica. Molière e Corneille de influência jesuítica, Racini de influência do jansenismo. Curiosamente, também, acredita-se que os três estudaram direito. Todos tinham muito a dizer sobre moral, justiça e a natureza humana.
            Suas obras estão calcadas no universo plausível da sociedade de sua época e na dimensão humana dos acontecimentos. Os aspectos do ser humano: as emoções e estados psicológicos das personagens, os diferentes tipos de personalidade e comportamento interessam mais que a ação em si.
            Outro ponto em comum era o apoio do rei Luis XIV. Mais do que uma característica “coincidente”, é um retrato da realidade político-cultural da época. Os teatros eram feitos para os reis, as personagens eram representantes da nobreza (em sua maioria) e, portanto, os artistas eram apadrinhados e patrocinados por reis e nobres.
            Defensores de seus pontos de vista e críticos da sociedade e do comportamento dos homens, Racine, Corneille e Molière foram alvos de críticas e censuras. A proteção do rei, nesses casos, os ajudou.
            Como clássicos, esses grandes escritores foram imortalizados. Ironicamente, antes de tornarem-se imortais, todos têm de ter um fim. É como se a morte fosse o caminho para transcender.
            Racine, que acreditava que o homem, por si só, era incapaz do bem; que possuía um temperamento dramático e uma estranha perturbação do espírito, deixou-se levar por sua vaidade, acreditando poder ocupar a posição de ministro do Estado. Sua reinvindicação foi negada, seu orgulho foi ferido ao ser expulso da corte de Luis XIV, adoeceu de humilhação e morreu. Escreveu em sua própria história a tragédia da qual sempre falou.
            Corneille, que triunfou falando de força e heroísmo, teve sua obra ofuscada por Racine. No fim da vida encontrava-se tão mal que passou a receber pensão do rei. Antes de ser imortalizado como herói da dramaturgia francesa, saiu de cena sem grandes aplausos, em declínio.
            E, por falar em sair de cena, dizem que Molière retirou-se da vida em cena. Desmaiou no palco, encenando um falso doente e, poucas horas depois, deu seu último suspiro.
            Ainda em vida Racine e Molière deixaram de se falar. Curioso que, mesmo contrários um ao outro, muito disseram em comum.
            Essas vidas e mentes interessantes, com certeza, têm muito mais a contar através de suas obras. Há um mundo (ou muitos mundos) a desvender. Um mundo (ou muitos) humanista e realista, vivido, contado, descrito, escrito e imortalizado por Jean Baptiste Racine, Pierre Corneille e Jean Baptiste Poquelin (Molière).
            Ouso dizer, ainda, que esses três têm mais uma característica em comum: instigaram-me a pensar, a “curiosar” e a amar ainda mais a arte de “teatrar”.


Raquel Arigony Prates