domingo, 3 de julho de 2016

Esconderijos do Tempo 742 (tomo 86)

A Figura do Diretor

                       Até a metade do século XIX, a figura do diretor era mais conhecida como "Encenador". Aquele que lia o texto e dizia: "-Você sai pela direita. Você pela esquerda. Segundo a rubrica, aqui você se abaixa... O texto indica um figurino preto." - Enfim, dirigir um espetáculo era colocar sobre o palco o que o dramaturgo decidiu. Somente mais tarde foi se percebendo que assim todas as obras ficavam parecidas demais. Um Romeu e Julieta montado aqui ou na Rússia, seriam praticamente iguais. A Arte ficaria assim muitas vezes, restrita a uma função quase histórica. Primeiramente era preciso atualizar, falar de uma obra com o olhar de nossos dias. Também foi se percebendo que o dramaturgo tinha a visão do texto no papel, e que o ator tinha a visão de sua personagem. Mas quem transporia aquilo que foi escrito para a complexidade de um palco? A figura do diretor foi crescendo. O Diretor vem falar de algo que percebeu no texto e que com aquele grupo de interpretes tentará dar vida.
                        É preciso as vezes, alguns atores se darem conta que pouco ou nada seriam no palco sem um bom diretor ou diretora. O artista e principalmente artista jovem, pensa que o palco é uma terra sem lei, e que na desculpa de ser "artista" pode fazer o que quiser e como bem entender. Isso afasta o público. É como em uma orquestra, sem a figura do maestro, as coisas simplesmente não acontecem. Algumas atrizes perdem as vezes a oportunidade de ficarem caladas, quando na verdade deveriam pensar no todo e atuar sem melindres. Algo como, se não sabe fazer algo melhor, faça o que lhe foi pedido! Pode parecer um pouco de autoritarismo o que estou aqui declarando, no entanto como um razoável diretor pode colocar sobre o palco um bom espetáculo se os atores acham-se no direito de querer erguer sua voz acima do todo? Impondo seus maneirismos, reclamando de tudo? 
                           Atores não são seres insubstituíveis, assim como um diretor sentou frente a um texto e criou em uma historia de vinte personagens uma versão de dez, pode rapidamente reduzi-la à cinco, à três, à dois, a monólogo. A Arte é grandiosa por ser mutável. Construível. A arte é um jogo, e nesse jogo há de se mostrar disposto!
                           Um exemplo disso? Esconderijos do Tempo já foi feito com anjo, sem anjo. com uma atriz interpretando musa e Lili e depois com duas atrizes interpretando musa e Lili. Quem faz Glorinha jovem, pode fazer a Glorinha já na madura idade. Uma atriz pode fazer Lili, Glorinha e Glorinha mais velha. Um Ator pode fazer anjo e Gouvarinho. Mario pode sentar-se sob o lampião e ir contando causos de sua vida. Imita Glorinha, corre como lili para lá e para cá, com um catavento nas mãos. Na cena final pode ir falando da morte até o lampião, dizer o ultimo texto e despedir-se lindamente da janelinha de acetilene. Ela seria apagada e mario caminharia para a escuridão. O Teatro é uma compilação de vontades, é o lugar para os gestos humanos e bons, pois é sagrado e vem dos Deuses. Quem é humano e humilde para outro ser humano é recompensado. A arte sem entrega, sem queda, sem generosidade, é violência. E violência é o contrário de arte!
***
                         Esconderijos na UNIJUÍ foi um exemplo do que é um trabalho pronto. Embora seja estranho chamar no teatro um trabalho de "pronto", no entanto quero dizer que Esconderijos é perfeito, redondo. O que o público leva é o máximo que se espera. sente-se na platéia, como se estivéssemos no palco. Cléber, Dulce, Fabio, Alessandra, Fernanda e Renato são perfeitos em cada detalhe de suas composições. Cléber está em seu melhor momento como ator. Para mim, Mario é sua melhor construção. Mario vive em cena e Cléber se retira. Fabio encontrou uma nova forma de dizer o soneto de Gouvarinho, uma maneira muito coesa com seu interpretar. Alessandra é belíssima em Lili, uma pena que tenha tantos quês com a musa/morte. Renato entra em cena com uma presença grande, vistosa. Fernanda segura a platéia na primeira cena, arranca deliciosos risos o que contrapõe-se com as lágrimas de Glorinha adulta. Dulce jorge fecha com chave de ouro nosso emocional. 
                             Em um espaço tão grande uma sonoplastia tão bem executada precisa ser elogiada, bem como um cenário e uma impostação vocal muito perfeitos. Diria apenas à Alessandra Souza para ser mais plástica em uma de suas personagens e infelizmente o espetáculo perde muito sem uma belíssima iluminação como já vi em outras ocasiões.
                                                                      
Cléber Lorenzoni (**)
Dulce Jorge (**)
Fernanda Peres (***)
Alessandra Souza (*)
Fabio Novello (***)
Renato Casagrande (**)
Evaldo Goulart (***)
Ricardo Fenner (**)
Gabriel Giacomini (**)
Raquel Arygoni (**)

                                                    Arte é vida????
  

                                                                                     A Rainha



         

Elenco de Esconderijos ao lado de alunos do EFA


O Talentoso Fabio Novello em sua releitura de O Chapeleiro Maluco


No Camarim da UNIJUÌ para apresentação de Esconderijos do Tempo


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Ultima da Temporada. Tomo 9

Sem a arte a vida fica tão monótona e chata como se eu estivesse em um filme de ficção cientifica. Tudo é cinza, cibernético e o rosto das pessoas não tem expressão!

             Subimos mais uma vez as escadarias do sobrado de Santa Fé. A família Terra Cambará continua aquartelada, cercada pelos soldados caramurus. Há quase quarenta dias estão ali. Não há muito o que comer, e duvida-se que continuem por mais tempo. Dentro do sobrado a velha Bibiana e o neto Bolívar continuam com pé firme.
            Engraçado que como amante de O Tempo e o vento. Hoje enquanto esperava a seção começar, me recordava desse trecho de O Continente.
            Subimos mais uma vez as escadarias do prédio da Unicruz Centro. A família Máschara continua decidida, cercada por muita gente que não vê necessidade nenhuma de termos teatro em Cruz Alta. Há quase quarenta dias estão em cartaz com a Sessão Maldita. Dentro do prédio Dulce Jorge nos recepciona e Cléber Lorenzoni continua decidido a continuar sempre. Ah, Erico, tua obra é antológica!
             E o embate continua, de um lado atores e público que gosta de teatro. Do outro, pessoas que vêem a arte como mera perda de tempo. Na cena, a complexa Ereda, interpretada lindamente por Alessandra Souza, nela não há problemas de dicção, sua presença é forte e o ritmo bem conduzido. Aliás ela e todo o elenco passeiam pela mesma vertente. No entanto há erros de concordância na pessoa do verbo. "Nem a você deveria assustar", "tudo ficastes parado enquanto estiveste fora". Cuidado interprete. A língua pátria, o português deve ser perfeito, sois comunicadores. Não podeis desleixar da língua. A protagonista do espetáculo precisa buscar a perfeição do texto. Em Werner também se nota um escape: "Você volta a aprender, eu te ensino"-Tu voltas a aprender, eu te
 ensino!
            Tirando as gafes no português, o restante do espetáculo brilha. Se posiciona de forma partiturada e com virtuosismo. A cena do envenenamento de bertold foi prejudicada pela atriz condutora. Talvez ela quisesse muito ser vista, ou foram desequilíbrios corpóreos, mas foi uma pena, a ultima apresentação da temporada ter a plástica dirigida pelo diretor tão prejudicada na cena.
             Para quem gosta de bom teatro é um dever assistir Complexo de Elecktra.
             Evaldo Goulart é muito interessante em cena, precisa desenvolver mais macetes, no futuro, com mais maturidade, dissimular menos e interpretar mais. Embora eu seja muito fã de seu trabalho. Raquel Arygoni esteve maravilhosa nesta quinta e Douglas Maldaner vem amadurecendo muito. Gabriel Giacomini é muito jovem, e talvez algumas vezes não perceba o peso das coisas que estão acontecendo. Mas acredito que leve bem a serio tudo o que seus colegas lhe pedem. É importante aprender o oficio. Os valores das coisas, as dificuldades de uma vida dedicada a arte.
              Um espetáculo concebido para 10 lugares, pode ser prejudicado quando a hiper lotação acontece. Atropelos, pessoas chegando atrasadas nas cenas...
              Que Complexo não pare. É um dos melhores espetáculos do Máschara.



Alessandra Souza. Deveria descer devido a cena tão problemática na morte do tio e os problemas de concordância. Mas por equilibrar com belíssima atuação técnica, lhe darei  (**).
Renato Casagrande. Merece subir pela contraregragem do espetáculo, mas sua interpretação hoje foi boa mas um tanto descuidada, principalmente quando virou o banco em cena (*)
Evaldo Goulart . Disposto, esforçado, fez sua parte. (**)
Gabriel Giacomini. Um jovem promissor. As vezes vai para um mundo paralelo. Precisa manter os pés no chão quando é responsável por coisas tão importantes quanto os fazeres teatrais. (**)
Cléber Lorenzoni. Não estava em um bom dia, disseram que estava com dores nas costas, não seria desculpa para não estar brilhante em cena. A voz ficou um pouco rouca, há de se ter mais cuidado com o colega corpo. (**)
Douglas Maldaner . Vem se modificando. Precisa, como qualquer outro, da repetição incansável para alcançar o sucesso.  (**)
Raquel Arygony. Encantadora nesta noite. Raquel é carta forte em Complexo. (***)


        Momentos Memoráveis.--  O Trabalho brilhante de Cléber e Renato na cena da morte do pai.
                       A presença dos membros da Academia Cruzaltense de letras.

Nona apresentação de Complexo de elecktra. Fim de temporada


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Palco pronto em Colégio Santíssima Trindade


Selfie com o público de O santo e a Porca


Esconderijos do Tempo em Ijui na UNIJUI


O Santo e a Porca 740 (tomo 11)

Teatro na escola cumprindo sua função


                           Quando me sento para assistir um espetáculo teatral, o que mais me atrai é a pesquisa antropológica, a compreensão do homem por parte do homem. É o grau de compreensão e espelhamento de uma determinada cultura, quando não se está compondo um novo homem, por exemplo em situações em que a peça não quer retratar o ser humano em sua realidade e sim uma paradoxal visão de uma outra criatura talvez utópica. 
                         O nordestino é um ser sofrido em sua maioria, mas de certa forma, aprendeu rapidamente a luta diária, a sabedoria matuta. Ariano Suassuna em sua perspicácia compreensão do povo sofrido do nordeste, nos dá um texto longo, divertidíssimo e as vezes enrolado demasiadamente. Eu já havia assistido O Santo e a Porca do Máschara algumas vezes, no entanto essa foi a versão mais facilitada do espetáculo. Havia no texto original três linhas: O sumiço da porca, o plano de Caroba, e o relacionamento entre Pinhão e a criada. Cléber começou extirpando  a existência de Pinhão. Agora reduziu a trama do roubo da porca e ainda simplificou todo o plano em relação aos casórios. Ótimo, teatro não deve nem pode ser enrolado. Em uma época que é tão difícil segurar ou atrair as plateias, levando em conta todas as opções que as atraem para outras paragens, uma Cia. precisa saber exatamente o que quer levar ao público. 
                                 O texto teatral é a historia contada pelo dramaturgo dentro de sua visão cognitiva de mundo. Já o espetáculo é a percepção de um diretor sobre aquilo que ele quer contar ao mundo através daquele texto escolhido. 
                                  Claro que não se espera muito no quesito plastica quando um espetáculo precisa ser podado de tantas formas para caber em um espaço adaptado dentro de uma escola. Mas o Máschara consegue manter boa parte de sua intenção durante suas incursões escolares. 
                                   Cléber Lorenzoni dominou a platéia como um bom condutor que é. Abriu espaço para que os colegas se esparramassem. Seu Eurico, talvez por seu  apelo truculento e ranzinza consegue espaço entre os alunos. Diverte ver alguém tão convicto de seu poder sendo enganado por todos a sua volta, principalmente se é alguém prepotente e intransigente. 
                                  Em O Santo e a Porca, os princípios são um pouco manchados em prol de um bem maior. Ao final, no momento da catarse tu te questionas se Eurico não está certo quando diz: Por que vou morar com uma família onde todos mentem para mim? No entanto foi o próprio Eurico que levou a família a mentir. Certo? Errado! Foi Caroba quem meteu os pés pelas mãos. Foi sua ingenuidade que criou grande parte dos enganos da trama. Ao mesmo tempo, a falta de olhar para o outro, para seu próximo é que repercutiu em lição pesada contra seu Eurico. 
                                      Alessandra Souza traz a cena uma margarida muito mais interessante do que da ultima vez que vi. Margarida é uma personagem intrincada, não da para ser mocinha no meio do sertão com a mesma visão de uma mocinha em Molière por exemplo. Aliás todo o elenco esteve muito bem, tanto os altos cômicos quanto os baixos. Talvez Evaldo e Ricardo precisem de mais jogo quando estão juntos em cena. Ricardo Fenner tem surpreendido muito com seu crescimento em cena. Isso se nota em Olhai os Lírios e em O Santo ficou ainda mais nítido. Fenner apenas me confundiu quando saiu pelo lado errado após conversar com Caroba. Deveria ir para o hotel de seu Dadá para voltar mais tarde, no entanto entrou para dentro da casa...
                                      Dulce Jorge se desfigura em cena, as vezes parece um pouco confusa, mas é só impressão, pois passei com muita propriedade pela casa do velho Eurico Árabe e seu jogo com Renato Casagrande denota a intimidade dos atores que reflete uma ótima parceria em cena.
                                         A função do teatro se cumpre envolvendo os jovens e reflete-se na explosão de aplausos na boca de cena. Todo o jovem deve entrar em contato com a arte e de forma facilitada e acessível o Máschara continua oferecendo isso.

Momentos a serem lembrados: 
   - A agradável conversa entre Cléber Lorenzoni e a Irmã Wanda Fronza.
    - A visita da colega e atriz Raquel Arygoni com seus pequenos

                        

O Santo e a Porca de Ariano Suassuna
Direção : Cléber Lorenzoni
Elenco: Cléber Lorenzoni (***), Dulce Jorge(***), Renato Casagrande(**), Alessandra Souza(**), Evaldo Goulart(**) e Ricardo Fenner(**)
Trilha Sonora: Cléber Lorenzoni e Gabriel Giacomini(**)
Cenário: O Grupo
Iluminação: Cléber Lorenzoni
Figurinos: Dulce Jorge, Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
Contra-Regragem: Renato Casagrande
Interpretes Substituídos: Gabriel Wink, Angelica Ertel e Luis Fernando Lara
Data de Estreia: 18 de Agosto de 2012


Arte é Vida


                          A Rainha






                             

Elenco de o Santo e a Porca nos bastidores de apresentação no colégio Santíssima Trindade


Platéia da IXª Edição do Complexo de elecktra


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Em artigo, músico e escritor reflete sobre o papel e a imagem dos artistas em um momento de crise política no Brasil

A história é mais ou menos assim: Mark Twain, o escritor norte-americano, estava sentado na varanda de sua casa quando passou um vizinho e perguntou "Descansando, vizinho?", ao que ele respondeu "Não, trabalhando". Outro dia o mesmo vizinho o viu cortando a grama do jardim e perguntou "Trabalhando, vizinho?", e Twain respondeu "Não, descansando".
Lembrei dessa historinha para exemplificar a ideia de que o trabalho e o descanso do artista não se parecem com os das demais profissões. Para o senso comum, "artista" nem mesmo parece ser profissão. Para que serve o artista afinal? O sistema não tem, a priori, um lugar para ele. O pintor francês Paul Gauguin trocou uma profissão "de respeito" e rentável para se tornar um pintor destinado a viver e morrer na pobreza e sem reconhecimento. Que julgamento esperar dos contemporâneos de Gauguin senão o de que ele havia enlouquecido, que era um misantropo, um inadaptado?

A sociedade está sempre pronta para receber os engenheiros, os médicos ou os advogados, nunca os artistas. Se um médico pendurar seu diploma em uma parede, entrar e sair rotineiramente pela porta de um consultório em que estiver afixada uma placa com seu nome e especialidade, ninguém dirá que ele não é um médico, seja ele bom ou mau profissional. Para o artista, um diploma e uma porta com seu nome nunca serão o suficiente. Seu reconhecimento dependerá sempre de critérios subjetivos. O que ele faz é artístico? O que é arte afinal? O próprio artista pode passar a vida fazendo-se essas perguntas. O dilema começa cedo. Ninguém pode dizer a uma criança ou a um adolescente se ele é ou será um artista. O artista só ouve a própria voz. Nos tornamos aquilo que somos, disse outro escritor. Mas que difícil é escutar a própria voz, dizer para si mesmo: sou um artista, serei um artista.
Em minha casa estimulamos muito nossos filhos a seguirem o caminho da arte caso se sentissem vocacionados para tal. Para a nossa alegria e a deles, Ian eIsabel são hoje artistas que muito nos orgulham. Mas sei que na maioria das famílias os pais tremem diante do projeto ou da decisão dos filhos adolescentes de quererem seguir esse caminho. O medo dos pais talvez se origine da percepção de que os jovens não têm experiência de vida suficiente para medir os riscos de uma escolha profissional equivocada ou de difícil trajetória – sem falar que, para muitos, escolher a arte significa simplesmente abrir mão de ter uma profissão "de verdade".
A difícil trajetória para um artista pode ser consequência do valor intrínseco do que ele produz, mas pode também, e talvez principalmente, resultar da dificuldade de inserção num sistema em que a arte é menos necessária que supérflua – daí a importância, para todas as sociedades, da existência de instituições culturais sólidas, aquelas que ambicionam dar à arte seu devido e digno lugar no sistema. Mesmo atuando num contexto adverso, o artista pode ser tido em alta estima. Mas é mais comum que enfrente preconceitos de toda ordem. É moeda corrente que seja taxado como vagabundo, boêmio, preguiçoso e/ou desregrado, por exemplo.
Particularmente considero da maior importância a vagabundagem, a boemia, a preguiça e o desregramento para o fazer artístico. Mas sei que um só desses adjetivos poderia destruir a reputação dos profissionais "respeitáveis" das profissões, digamos, convencionais. O artista paga alto preço por levar uma vida não convencional. Além disso, como para as pessoas em geral a arte está ligada aos momentos de entretenimento, prazer ou mesmo de descanso – aos momentos em que saem da "rotina" –, impõe-se a ideia de que o artista vive só nesses, por esses e desses momentos de lazer, que sua vida é uma festa permanente. Pouco se sabe do fazer artístico, do quão difícil e complexo ele pode ser, de quanta transpiração existe para cada inspiração. Quem não conhece a fábula da cigarra e da formiga?
Por mais que pensemos em culturas diferentes, em países em que a arte seja mais ou menos valorizada, nos EUA de Twain, na França de Gauguin, no Brasil de Noel Rosa – aquele boêmio incorrigível que, tendo vivido apenas 26 anos, criou uma obra genial com potência suficiente para moldar nossa identidade nacional –, não acredito que o papel do artista na sociedade mude muito de um lugar para o outro. No caso do Brasil atual, a dita demonização dos artistas me parece pontual, diz respeito à política. As pessoas estão demonizando umas às outras de um modo que acena com a barbárie, com a falência de um projeto democrático para o país. Por que os artistas seriam poupados dessa insanidade se, em sua maioria, eles se situam no espectro político mais à esquerda, justamente o que agora está sendo julgado?
Mas estou seguro de que aqueles que hoje insultam um Chico Buarque ou um obscuro grupo de teatro de vanguarda sabem, no fundo, que o trabalho desses artistas é da maior importância; sabem que, produzindo cada um a seu modo e com liberdade, eles são fundamentais para a nossa constituição como nação. Uso a expressão "no fundo" de propósito. Talvez o foco agora devesse estar no fundo, talvez precisássemos ir fundo nisso tudo. Que tal irmos e sairmos de lá compartilhando a mais legítima alegria cidadã?