segunda-feira, 22 de junho de 2026

Artigo I - Para atores e gente do oficio

 

Texto para ser lido sob bambolinas

                         Enquanto caminho em direção ao Palacinho para mais um ensaio, vou tentando construir uma boa cena dentro da cabeça. Às vezes ela já nasce quase pronta. Outras vezes vem aos pedaços, como quem não quer se revelar de uma vez. Nesse trajeto, porém, me divirto me colocando no lugar dos atores. Eu sou ator antes de ser diretor, essa é minha natureza e um ator carrega dentro de si dezenas de vidas, centenas de emoções e uma capacidade extraordinária de emprestar o próprio corpo para que, alguém que não existe possa existir diante do público. Mas também sei que, muitas vezes, eles não sabem por onde começar.  O teatro, as vezes parece grande demais para caber numa definição simples.

                       Volta e meia me pergunto o que é, afinal de contas, o teatro. E quanto mais penso, menos consigo reduzi-lo a uma técnica, a uma arte ou a um espetáculo. Para mim, teatro é comunicação. É o encontro mais antigo e mais sincero entre alguém que tem algo a dizer e alguém disposto a ouvir, por isso acredito que o teatro precisa ser atraente. Não no sentido superficial de apenas divertir, mas no sentido de capturar a atenção das pessoas para então provocar reflexão, despertar sentimentos, informar, transformar ou até mesmo incomodar. Um espetáculo pode arrancar gargalhadas e ainda assim fazer pensar. Pode emocionar e, ao mesmo tempo, ensinar. Pode entreter e transformar uma comunidade inteira.

                     O público não se senta diante de um palco para assistir a um exercício de vaidade. Ele vai em busca de uma experiência. E cabe a nós oferecer algo que dialogue com a sua realidade, com seus sonhos, seus medos e suas perguntas. É PRECISO SE COLOCAR NO LUGAR DAS PLATEIA “O QUE VOCÊ TEM A DIZER É MUITO IMPORTANTE PARA ELA”.  Talvez por isso o primeiro trabalho que costumo indicar aos meus atores não seja decorar o texto. Claro que decorar é importante. O texto é a estrada. Mas não é a viagem. O primeiro exercício é ouvir. Ouvir de verdade.

                      Escutar o parceiro de cena. Escutar as pausas. Escutar os silêncios. Escutar até aquilo que não foi dito. Porque quando um ator está realmente ouvindo, ele deixa de apenas repetir palavras decoradas e passa a reagir ao que acontece naquele instante. A cena fica viva.

                       E a resposta surge quase como um mecanismo de defesa. Alguém lança algo no palco e o personagem responde. Não porque chegou a sua vez de falar, mas porque algo o atingiu. E quando isso acontece, o público percebe. Talvez não saiba explicar, mas percebe. Existe uma enorme diferença entre dizer uma fala e responder uma fala.  Dizer é reproduzir. Responder é viver.

                      É por isso que sempre insisto que as personagens não são construídas apenas pelos seus discursos. Elas nascem da troca. Das réplicas. Das reações. Do que recebem e do que devolvem. Um personagem é aquilo que fala, mas principalmente aquilo que escuta. Quando dois atores realmente se ouvem, o texto ganha respiração. As palavras deixam de ser um monumento imóvel e passam a ser uma conversa. E o teatro, que às vezes corre o risco de virar mera repetição, volta a ser aquilo que nasceu para ser: UMA CERIMÔNIA!

                   Talvez seja por isso que sigo pensando em teatro enquanto caminho para os ensaios. Porque cada cena ainda é uma pergunta sem resposta definitiva. E porque acredito que o palco continua sendo um dos poucos lugares onde seres humanos podem se reunir para ouvir e serem ouvidos.

                   No fim das contas, talvez o teatro seja exatamente isso: uma conversa que nunca termina. Agora eu, diretor, te pergunto, você ouve o outro em cena?

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