Texto para ser lido sob bambolinas
Enquanto caminho em direção ao Palacinho para
mais um ensaio, vou tentando construir uma boa cena dentro da cabeça. Às vezes
ela já nasce quase pronta. Outras vezes vem aos pedaços, como quem não quer se
revelar de uma vez. Nesse trajeto, porém, me divirto me colocando no lugar dos
atores. Eu sou ator antes de ser diretor, essa é minha natureza e um ator carrega
dentro de si dezenas de vidas, centenas de emoções e uma capacidade
extraordinária de emprestar o próprio corpo para que, alguém que não existe
possa existir diante do público. Mas também sei que, muitas vezes, eles não
sabem por onde começar. O teatro, as
vezes parece grande demais para caber numa definição simples.
Volta e meia me pergunto
o que é, afinal de contas, o teatro. E quanto mais penso, menos consigo
reduzi-lo a uma técnica, a uma arte ou a um espetáculo. Para mim, teatro é
comunicação. É o encontro mais antigo e mais sincero entre alguém que tem algo
a dizer e alguém disposto a ouvir, por isso acredito que o teatro precisa ser
atraente. Não no sentido superficial de apenas divertir, mas no sentido de
capturar a atenção das pessoas para então provocar reflexão, despertar
sentimentos, informar, transformar ou até mesmo incomodar. Um espetáculo pode
arrancar gargalhadas e ainda assim fazer pensar. Pode emocionar e, ao mesmo
tempo, ensinar. Pode entreter e transformar uma comunidade inteira.
O público não se senta
diante de um palco para assistir a um exercício de vaidade. Ele vai em busca de
uma experiência. E cabe a nós oferecer algo que dialogue com a sua realidade,
com seus sonhos, seus medos e suas perguntas. É PRECISO SE COLOCAR NO LUGAR DAS
PLATEIA “O QUE VOCÊ TEM A DIZER É MUITO IMPORTANTE PARA ELA”. Talvez por isso o primeiro trabalho que
costumo indicar aos meus atores não seja decorar o texto. Claro que decorar é
importante. O texto é a estrada. Mas não é a viagem. O primeiro exercício é
ouvir. Ouvir de verdade.
Escutar o parceiro de
cena. Escutar as pausas. Escutar os silêncios. Escutar até aquilo que não foi
dito. Porque quando um ator está realmente ouvindo, ele deixa de apenas repetir
palavras decoradas e passa a reagir ao que acontece naquele instante. A cena
fica viva.
E a resposta surge quase
como um mecanismo de defesa. Alguém lança algo no palco e o personagem
responde. Não porque chegou a sua vez de falar, mas porque algo o atingiu. E
quando isso acontece, o público percebe. Talvez não saiba explicar, mas
percebe. Existe uma enorme diferença entre dizer uma fala e responder uma
fala. Dizer é reproduzir. Responder
é viver.
É por isso que sempre
insisto que as personagens não são construídas apenas pelos seus discursos.
Elas nascem da troca. Das réplicas. Das reações. Do que recebem e do que
devolvem. Um personagem é aquilo que fala, mas principalmente aquilo que escuta.
Quando dois atores realmente se ouvem, o texto ganha respiração. As palavras
deixam de ser um monumento imóvel e passam a ser uma conversa. E o teatro, que
às vezes corre o risco de virar mera repetição, volta a ser aquilo que nasceu
para ser: UMA CERIMÔNIA!
Talvez seja por isso que
sigo pensando em teatro enquanto caminho para os ensaios. Porque cada cena
ainda é uma pergunta sem resposta definitiva. E porque acredito que o palco
continua sendo um dos poucos lugares onde seres humanos podem se reunir para
ouvir e serem ouvidos.
No fim das contas, talvez o
teatro seja exatamente isso: uma conversa que nunca termina. Agora eu, diretor,
te pergunto, você ouve o outro em cena?
texto inspirador!
ResponderExcluir