quarta-feira, 29 de abril de 2026

Elenco reunido - COARTE


 

Gazeta de Alegrete


 

Materia Paixão de Cristo - Gazeta de Alegrete


 

Texto - A Paixão de Cristo Me dê sua mão 2026

 

A PAIXÃO DE CRISTO 2026 – Me Dê a Sua Mão (Alegrete)

 

PRÓLOGO

Mulher 1:  Há dois mil anos, um povo caminhava. Caminhava sob o peso do Império, da fome, do medo e da injustiça.

Homem 1 e 2:  Havia feridas abertas nas ruas poeirentas da Galileia,

assim como hoje há feridas abertas nas ruas de nossas cidades.

Homem 3, Mulher 2 e 3: Há dois mil anos, também se esperava um Salvador. Um libertador que viesse romper correntes, curar corpos, restaurar a dignidade, reacender a esperança em corações cansados.

Mulher 4 e 5: E hoje…dois mil anos depois, ainda caminhamos. Ainda esperamos.

Homem 4, 5 e 6: : O mundo de Jesus conhecia a exclusão, conhecia o abandono dos pobres, conhecia o choro das mães, conhecia a violência, a opressão, a indiferença.  

Outros: E o nosso mundo conhece tudo isso também.

Todos: Conhece a fome que humilha, a desigualdade que mata,

a solidão que adoece, a pressa que nos faz esquecer do outro.

Mulher 6: Mas se ainda caminhamos… é porque a fé não morreu.

Outros:  Ela pulsa. Pulsa nos que acreditam, mesmo em meio às lágrimas.  Nos que partilham o pão. Pulsa nos que estendem a mão.  Pulsa nos que não se acostumaram com a injustiça.

Homem 7 e mulher 7: A fé pulsa porque, há dois mil anos, Deus escolheu caminhar conosco. Não veio como rei poderoso, mas como homem entre homens. Não escolheu palácios, mas as estradas poeirentas da vida real.

Homem 8, mulher 8 e 9: Nesta noite, não viemos apenas assistir a uma história antiga.  Viemos reconhecer a nossa própria história.

Todos: Mantemos a fé pulsante. O amor vivo. E a esperança acesa.

João Batista: Ouçam, o mesmo Cristo que caminhou há dois mil anos, continua caminhando hoje.

E caminhará conosco até que toda dor seja transformada em vida.

Há dois mil anos nasceu uma criança chamada Jesus, logo todos perceberam que se tratava de uma criança muito especial e por isso foi tentada pelas forças do mal.

1340 -A Paixão de Cristo - COARTE (TOMO 01) Me dê sua mão - GRUPO MÁSCHARA (TOMO 05)

UM TEATRO EM EXPANSÃO 

                 Na noite do último domingo, o espetáculo Me dê sua mão, subiu ao palco do Centro Cultural Adão Ortiz em Alegrete/RS, não pude estar presente, como diz a Matriarca de Bodas de Sangue de García Lorca: "Estou velha demais para andar em festas", brincadeiras à parte, gostaria muito de ter estado presente, de apoiar esse jovem grupo, que corre para alcançar seu lugar ao sol. Felizmente ou não, o espetáculo foi todo filmado, transmitido pelas redes sociais, a "coqueluche" do momento. Por ter assistido através de via remota, dividirei esse espaço com o diretor do espetáculo, Cléber Lorenzoni, que além de escrever e dirigir, ainda atuou em algumas cenas de A paixão de Cristo.

                                       Dirigir a COARTE, tem sido um processo de mergulho nas tantas possibilidades de compreensão resiliente do artista. A COARTE não é meu grupo, eu no entanto sou seu diretor. Isso me coloca em um lugar muito interessante de receptor, ou seja, o que a COARTE tem para me dar como ser criativo, minha função não é impor, mas sim coletar, lapidar e levar ao público. Principalmente por que o grupo tem artistas de vários lugares da arte, diferentes entre si, vários olhares, várias escolas e caminhadas muito distintas. Há também o fator, faixa etária, que interfere de forma positiva, pois promove troca de vivências entre as gerações.

Kléber Lorenzoni 


                 O espetáculo atrasou em demasia e de alguma forma, eu pressenti que algo estava a colocar a apresentação em risco. Uma cena tangencial abriu a cena, e logo depois um elenco cheio de "fogo e fome". A sensação para quem assistia, era a de que um vendaval balançava cenários, roupas e árvores. Algo estava intensamente conectado às energias naturais, Paulo Amaral desceu as escadas do praticável, como um Moisés com as tábuas das leis. Renato Casagrande ascendeu ao palco com uma plenitude muito bonita, parecendo inclusive mais alto que todo o restante do elenco. Conhecendo o teatro de Lorenzoni, percebi alguns percalços que me deixaram tensa, situações pequenas que o público presente nem deve ter percebido, a não ser os mais observadores. 

O teatro não deve jamais ser filmado, transmitido ou aprisionado, pois quando se filma uma peça, se capta apenas um fragmento empobrecido dele. A câmera escolhe um olhar único, enquanto o teatro oferece infinitos. Filmar é reduzir o que é essencialmente vivo, à algo estático. Há também uma questão de respeito à criação artística. O teatro é pensado para o espaço, para a luz específica, para o tempo real. A filmagem, por melhor que seja, altera enquadramentos, corta nuances e pode distorcer intenções do diretor e dos atores. É como tentar guardar um pôr do sol dentro de uma caixa: o que se leva é apenas uma lembrança pálida daquilo que realmente foi. É importante os atores da COARTE aprenderem a desapegar-se de sua imagem, ela se torna pública e não precisa mais de sua validação. Ao terminar um espetáculo, não queira tanto, fotos e vídeos, queira já pensar no próximo processo, com a consciência de que deu seu melhor.

Kléber Lorenzoni 

                  O largo do Adão Ortiz, mais parece a encosta de uma montanha, semelhante ao Teatro de Epidauro, local onde doentes peregrinavam em busca da cura. O teatro da COARTE é cura, me parece, cura para uma sociedade inteira. É luz dos Deuses, é o soltar-se dos grilhões e enxergar novas perspectivas, novos caminhos a se seguir, vendo o mundo mais colorido, mais diverso, mais democrático. O Palco é púlpito de perguntas e respostas, é plataforma de desenvolvimento pessoal, é troca entre gerações, é aceitação do novo e purgação do que está ultrapassado. Dentre grandes surpresas, o olhar feminino da direção do espetáculo gritou em alto e "bom som": -Jamais erga a mão para uma mulher. -Também colocou sobre o palco mulheres na santa ceia. Foi uma atriz (Lisiele Tronco) quem teve a prerrogativa de carregar o papel de Anáz, o inimigo número 1 de Jesus. Fabiana Torrens saltou aos olhos, com uma força que imagino ser semelhante a da primeira discípula de Jesus. Vários artistas se destacaram, romperam barreiras, adentraram o palco como artistas maduros. Suas narrativas foram funcionais. Lorenzoni separou a dedo as personagens, baseado em dedicação, espontaneidade, perfil humano e capacidades técnicas. Uma verdadeira dança humana, com um corpo de atores em construção, em um palco de mais de trinta metros de largura. A união entre talentos tão distintos, produziu uma massa amorfa, com momentos de formação escultural cristalina. Palmas para o cortejo e a ousada entrega da atriz interprete da rainha Herodiaze. 

 Enquanto diretor, meu objetivo é ajudar a COARTE a desenvolver personalidade cênica própria, as vezes  essa construção leva tempo, ela depende de um grupo caminhar junto, trocar, se observar, se ouvir, compreender sua cidade, sua cultura, seu jeito. É preciso entender sua cultura, o que uma cidade precisa, busca. Entender sobre o que e de que forma se quer usar o púlpito. O teatro é a mãe de todas as artes, por que une, sem barreiras todos e todas, une dança, musica, literatura e artes plásticas para compor uma frase, uma ideia, um olhar. Qual o olhar da COARTE?

Kléber Lorenzoni 

          Com quase duas horas de espetáculo, Me dê sua mão, tocou, toca, porque promove o movimento, eu sempre digo que sirvo muito mais para assistir teatro e analisá-lo do que para pisar no palco, mas senti uma vontade de entrar na tv e participar daquela energia que pendia do aparelho. O Jesus de Renato Casagrande por sobre o palco, apoiado em algum estrado, ou altar, não sei, mas o texto final realmente emocionou quem saiu de casa, não para um evento de páscoa, mas para uma noite de teatro, ao ar livre, gratuito. Um arrojo de cores, de ideias. Talvez as cenas à esquerda do palco tenham ficado escuras. Talvez alguns atores tenham atropelado sua própria dublagem, talvez algumas cenas tenham ficado enroladas ao fazer sua transposição para um palco bem maior que o espaço ensaiado. O cortejo de Jesus merecia mais ensaios! É preciso fazer para valer, levar a serio, ou sair da frente. Deixar o caminho para quem veio para valer, para quem veio de verdade. Há espaço, deve haver espaço para todos, mas aqueles que vem pelo teatro, merecem estar um passo à frente. Teatro pode ser brincadeira, pode ser hobby, pode ser uma forma de fazer amigos, pode ser um pouco de tudo, mas acredito que a COARTE quer mais. Quer fogo e luz, quer gana e ferida aberta.   

             A curva dramática aconteceu. Iniciou-se na cena dos demônios, muito bem desenhada, e se seguiu até o final, visível, firme. Parabéns ao jogo de cena dos três "corvos" do templo. Parabéns a energia do Herodes de Didy Flores. E parabéns ao conjunto de artistas e não artistas que ao pisar no palco, ergue a bandeira da arte cênica e defende sua importância para pessoas. Defende nossa ancestralidade. Ainda preciso parabenizar a força das dublagens e a contemporaneidade do texto, brilhante.

                Parabéns ainda à força do intérprete de Pilatos, Maico Carricio, que tem a força de mordida em cena, tão necessária para quem quer crescer no teatro, e à Andriele Dall Agnol, que mesmo sem dizer uma única palavra em cena, disse muito com sua desfiguração cênica. 

                       Unir minhas duas famílias, tem sido o maior presente que tive como diretor e agradeço profundamente aos diretores da COARTE: Sissy, Paulo, Andriele, Ju e Didi. Além da disponibilidade de Tina, Lully e Rose, fazendo de tudo sempre para me auxiliar em todo o processo.  Vida longa à COARTE.

Kléber Lorenzoni 

O Melhor: A grandiosidade de um espetáculo criado em menos de dois meses, e preparado com um amor que chega até nós.

O Pior: O atraso, colocando em risco o interesse do público. A deficiência do processo de sonorização e iluminação do espetáculo. 


                    A Rainha

  

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A Páscoa de Cruz Alta sendo Fantástica


 

Cartaz do espetáculo Me dê a sua mão


 

Momento de ouvir o diretor


 

Jogo de cena na COARTE


 

Os Mortos de Antares


 

O Ator Renato Casagrande e a atriz Rosiane Moraes


 

Dia de ensaio na COARTE


 

1338- Lili Inventa o Mundo (tomo 131)


                               Desde que surgiu em 1992, o Máschara sempre teve que se adaptar, adaptar às lutas, as mudanças... Em 1999, Lorenzoni passou a dirigir espetáculos, era ainda muito jovem, e não imaginava tudo o que viria pela frente. O Máschara desenvolveu em meio a muitas batalhas, a capacidade de estar em quaisquer palcos, com quaisquer públicos. Isso oferece a capacidade rápida de os artistas mais velhos adaptarem-se. Ao chegar em um espaço, eles rapidamente compreendem os déficits do local, em instantes soluciona-se muitas coisas. Já vi o grupo distribuir mais de 500 cadeiras em uma apresentação em Vicente Dutra. Já vi o grupo cobrir janelas com tecidos e muito papel pardo. Já vi o grupo improvisar figurinos em Caxias do Sul. Já vi o grupo ensaiar em uma praça, quando ficou sem espaço em 2000. Essa capacidade, faz com que o teatro desses artistas consiga estabelecer-se em qualquer situação. E isso deve ser buscado e aprendido pelo elenco mais novo, que pode esquecer que teatro é luta...

                       Quando os atores se veem e veem seu público, o espetáculo cresce, e toma conta de todos, envolve e interessa. Na manhã de sábado, Lili Inventa o Mundo subiu ao palco, do Centro Cultural de Soledade, e a absorção do clima do espetáculo, foi viva, plena. Lili é uma peça para crianças, no entanto o histrionismo de alguns integrantes (personagens) consegue prender a atenção de todos. Ao longo de quarenta e cinco minutos, versos e prosa e Quintana, são executados em forma de canções e o resultado não poderia ser outro, que não longos aplausos sem fim. As crianças brincam com cores e movimento, os adultos se envolvem e o espetáculo acontece. Com um cenário simples, figurinos multicoloridos, e detalhadamente planejados, toda a atenção vai para o lúdico proposto pela direção. 

                            Entender um elemento cênico como código teatral, é vê-lo, ao mesmo tempo, de duas formas: como parte de um sistema com outros códigos e como, o próprio elemento. Esses momentos perpassam muito o trabalho do Máschara. Códigos humanos, elementos não concretos as vezes, mas muito vivos na psique humana. Lili Inventa o Mundo usa muito do conhecimento universal relacionado à literatura. Bruxas, feitiços, heróis... tudo vai se misturando em uma salada mista, que carrega códigos talvez não compreensivos a um primeiro olhar.  Assim é por exemplo com a "santa", que na verdade é a maior de todas as fadas, mas que fica muito claro que estamos falando da "mãe de Jesus". O espetáculo tem uma simplicidade muito efetiva, vê-se isso na transformação de Mathias, e deve ser assim  por que a poesia também é simples, tanto em pronuncia quanto em criação. 

                              O elenco tem um trabalho corporal formidável, colunas que sobem e descem, usando níveis, trabalhando assim ritmo energia e força, condensados em narrativa física. O trabalho vocal criativo de Renato Casagrande salta aos olhos, e a técnica fonética de Lorenzoni, seguram momentos em que suas cordas vocais tendem a falhar. 

                                   Interessante lembrar aos artistas, que seu corpo, voz, expressão, energia, são seu equipamento de trabalho, por isso, Stanislavski já aconselhava atores e atrizes a cuidarem profundamente de seus corpos. Ele é o maior elemento cênico. 

                                 Guma esteve mais calma na ultima apresentação, mais inteira. Teixeira esteve muito bem como Rainha das Rainhas, mas pode trabalhar mais a expressividade facial. Devi deve continuar buscando o âmago de liderar um elenco. Serquevitio deve encontrar mais recurso de sua personagem. 

                                    Foi sem duvidas uma linda manhã de espetáculo.


Arte é Vida



A Rainha

                                  


                             







terça-feira, 14 de abril de 2026

Páscoa Fantástica com SESC


 

Elenco de A Paixão de Cristo em frente à UNIMED -


 

1337- O Incidente (tomo 101)

                  Veríssimo e Quintana foram do interior, para a capital, fizeram suas carreiras na área da literatura, conheceram-se, tornaram-se amigos e prosperaram. Ambos trabalharam na editora globo, nasceram um em 1905, o outro em 1906. Vi várias vezes Érico caminhando pelas ruas do bairro Petrópolis com sua esposa Mafalda. Mario, eu vi andando pela praça da Alfândega, com seu jornal abaixo do braço. Desde 2006, para o Máschara, ambos sempre andaram muito próximos, muitas vezes em um mesmo dia, o grupo levou ambos para o palco. Dois escritores gaúchos, com seus trabalhos valorizados e sua literatura respeitada sobre o sagrado tablado. Em Soledade, Mario foi honrado à tarde, Érico à noite. Os sete mortos subiram ao Palco do Centro Cultural, vindos por um corredor escuro, com uma plateia curiosa e interessada. A Shirley Terezinha de Clara Devi já havia aberto a cena, com um bife bem pronunciado, mas fora do microfone. Aliás, quase todo o elenco teve problemas com os microfones, e ao mesmo tempo tem dificuldades em manter a estrutura da voz, com estrutura suficiente para alcançar o fundo do auditório. A ideia não é gritar até a voz chegar na última parede do prédio, mas imaginar que a voz é uma pedra, que deve cair lá no centro da plateia como se caísse em um lago e ir esparramando-se em pequenas ondas. Atores e atrizes não se acostumam com a possibilidade de aquecer a voz antes de entrar em cena. Porque?

         O teatro, difere-se das outras artes por que é mutável. A bailarina tenta a cada noite acertar seu solo, sua coreografia... A cantora tenta alcançar a nota mais aguda, o pintor tenta aperfeiçoar o traço, já o intérprete, deve trocar, comunicar, sentir o espaço, sobretudo, viver o momento. Ora, apresentar Verissimo para um público de adolescentes em uma escola na capital é muito diferente de apresentar o mesmo Verissimo em uma escola agrícola no interior, e diferente de apresentar no teatro São Pedro para público de teatro, é apresentar para  professores do interior que não tem costume de ir ao teatro. E essa é a peça fundamental para compreender o que é o teatro, qual sua função na sociedade.

                 Dunga, Antônio Carlos Brunet, um grande crítico teatral, dizia que se o ator ficar omisso a um holofote que cai durante uma apresentação, se ele não se manifestar, fingir que não viu ou não envolver o holofote em sua cena, o público pode ir embora, não são atores preparados. É preciso sentir o público indo embora, sentir quando as pessoas perdem o interesse na cena, perceber um balão que estoura, perceber uma luz que muda. É essa falta de percepção que faz tantos atores e atrizes permanecerem no escuro em cena. Eles simplesmente não sentem a luz, o brilho, o calor do holofote. Digo holofote por que em meu tempo de jovem, dizia-se holofotes. Hoje em dia há uma infinidade de novas possibilidades, ainda assim atores são mal iluminados.

               Exemplo disso, foi a cena de Erotides que deveria ter ficado toda iluminada de verde, no entanto a geral acessa manteve-se aberta. O incidente de Antares está acontecendo no palco de um teatro de Soledade, ou em Antares? O ator que pensa que está em Antares, está seguindo Stanislavski de forma equivocada. Esse é o grande metateatro do existir cenicamente. Os atores abrem uma comporta, um portal, que conecta o aqui e agora com o momento narrado na história e esse ato cria a força de um hiato na existência. 

                 Lorenzoni tem uma perspicácia em trazer um mundo de signos para a cena. Isso lhe dá uma camada a mais de atuação. No entanto, o percebi cansado, distante. Casagrande fez uma cena linda, que poderia ter mais silêncios; a trilha sonora ficou toda abaixo do volume necessário para auxiliar na catarse; o sutil novo visual de Pudim, foi muito expressivo. A pausa de Maldaner após sua fala, poderia ter sido mais longa, mas Guma perdeu o tom da piada. 

                     Em 1923, Ricciotto Canudo propôs o Manifesto das sete artes, a partir da hierarquica visão de Hegel; para o teórico as sete artes são: arquitetura, escultura, pintura, música, poesia, dança e cinema. Anos mais tarde ao ser questionado quanto a ausência do teatro  na lista, ele respondeu: O teatro não é uma das sete artes, não pode ser visto como uma delas, pois ele carrega em si, a cada espetáculo, estudo, ou ação, códigos universais de todas elas. Há em um simples espetáculo: o estudo da escultura no físico dos atores; há a pintura, no banho de luzes e no figurino dos atores; o texto do dramaturgo é recheado de poesia; parte da musicalidade o próprio texto em consonância com as canções empregadas; as linhas geométricas da arquitetura passeiam por cenários; e é uma dança que movimenta atores de um lado ao outro pelo palco. O cinema, é interpretação com suas regras de Stanislavski; ou seja, o teatro é a mãe de todas as artes, ele tira a arte de seu lugar muitas vezes inerte e a trás até o peito, à mente, à alma do expectador. O teatro é como José do Egito, cercado por seus irmãos, transmutados em feixes de trigo, em seu sonho.

                     Para encerrar, quero elogiar a postura, a entrega e a força dos atores de O Incidente, carregando um espetáculo há mais de vinte anos em cartaz. Vida longa ao texto de Verissimo! Vida longa ao Máschara!


O Incidente (2005) - Texto e Direção Kléber Lorenzoni

Dr. Cícero Branco(-)

Dona Quitéria Campolargo (**)

Professor Menandro Olinda (-)

Barcelona (**)

Erotildes da Conceição (*)

João Paz (**)

Pudim de Cachaça (**)

Shirley Terezinha (**)


Equipe técnica 

Kleberson Ben (*)

Ana Clara Kraemer (**)

Roberta Teixeira (**)

Grupo Máschara e artistas de teatro de Soledade na Feira de Livros


 

Artista de O Tempo e o Vento em Soledade


 

sábado, 11 de abril de 2026

1334/1335/1336 - Lili Inventa o Mundo (tomos 128/129/130)

                  Lili Inventa o Mundo, completou esse ano, 20 anos de trajetória. Mais de um cento de apresentações, uma escola de teatro para atores e atrizes. Em Lili, o público entra em contato com o clichê do teatro infantil, "palhaços", bruxas, feitiços e ouras peripécias que faziam muito sentido no universo fantasioso de Quintana do século passado. Talvez seja exatamente essa energia que prende o espectador, como se fosse uma festa dos anos oitenta, ou um revival.  Na primeira inserção do dia, os atores pareceram fazer um esforço, quase sobre humano para que suas vozes alcançassem todos na sala de espetáculos. As vozes de Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande sobressaíram-se, com potência e desenho, no entanto o restante do elenco precisa trabalhar as técnicas, aquecer as cordas vocais antes do Mise em scène. Existe uma voz própria que é de palco, é preciso encontrar em si essa voz. Sai-se do teatro bastante satisfeito com o visual colorido de Lili Inventa o Mundo, figurinos com uma coerência na união entre tantas texturas, a iluminação de Junior Lemes, o cenário, tudo casando perfeitamente. Claro que havia no iluminação um problema de mapeamento de palco, com praticamente duas áreas a serem iluminadas. Os atores sofreram com isso. Alguns atores e atrizes não percebem a luz, mas ouvem a trilha sonora, mas aqueles que são mais sensíveis a estética ao seu redor, acabaram por ficar divididos, procurando o melhor foco. O ponto alto, no entanto, foi o jogo cênico, com canções que embalaram a narrativa de forma inteligente e viva. A primeira apresentação do dia, nos pareceu um ensaio geral bem feito. Ouviu-se de boca pequena, que a equipe estava receosa, com pouco ensaio, com medo de não dar conta. Deram! A segunda apresentação foi também virtuosa, nessa a atriz Roberta Teixeira conseguiu aparecer na cena, seu olhar e a tentativa de uma expressa malícia, contrastaram com seus primeiros momentos no palco, quando é uma contadora/boneca. Faltou desenho em Serquevitio e talvez, se essa fora a escolha da direção, falsete. A cena de transformação nos ganha, pela ludicidade e simplicidade com que Casagrande conduz a personagem Mathias. Sinto falta de mais versos e rimas do próprio Quintana. Cada ator e atriz poderia decorar as rimas de Pé de Pilão e usar em improvisos:                                  "Fazia tanto barulho, que o pato ficou engulho. Pisou no bico do pato: - Eu também quero retrato!  - No retrato saio eu só, para mandar a minha vó! A discussão não parava e cada qual mais gritava.

Lorenzoni usa muito o público a seu favor, Devi pode ouvir mais, ouvir é a palavra do dia. Quando você respira e ouve os colegas, o jogo teatral e estabelece. A encenação com microfones deve ter sido extenuante aos atores, ruídos, fugas de ar, ruídos abruptos, tudo colaborava negativamente. Somente na terceira apresentação do dia, nos foi possível embarcar na aventura, e ainda que tenha sido um pouco longa, nem a saída do público em função de ônibus, diminuiu a funcionalidade cênica do espetáculo. Ouvi alguém dizer que Lili pode estar chegando ao fim, uma pena. É um desses espetáculos que sempre toca, sempre chega, sempre tem algo a dizer. 

Eu quero ser para sempre criança. Para sempre criança... Engraçado, que essa frase se conecta com a cena da avó de Jesus em A paixão de Cristo. Acredito que o dramaturgo esteja tentando dizer algo para o público. Será que a vida adulta o abala? Será que o menino não quer crescer? Sabe-se que o velho solitário que andava pelas ruas de Porto Alegre com um jornal embaixo do braço, nunc apode ser realmente uma criança... 

A arte do Máschara cumpre sua função, como um teatro que usa da variedade para engrandecer seus artistas, que cria desafios para alcançar o aprimoramento do trabalho. O elenco que participou das três apresentações de Lili, certamente não será mais o mesmo. Na ultima apresentação do dia, Clara esteve no ritmo necessário. Não sei se foi de proposito interromper Lorenzoni quando ele e Malaquias estavam se preparando para dormir, mas a cena funcionou muito bem. Guma pode se abaixar mais para a esquerda quando adormece e Teixeira ficou atrás de Devi na "dança velha". Clara precisa se ater às curvas do espetáculo. 

Parabéns por esse retorno, acredito que Lili não subia aos palcos desde 2024, foi um presente à Soledade e um presente necessário à poesia!


Lili Inventa o Mundo

Texto : Livre adaptação de Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, a partir da obre de Quintana. 

Cidade: Soledade

Elenco: Clara Devi, Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande, Carol Guma, Antonia Serquevitio e Roberta Teixeira


Carol Guma - A fada Máscharada


 

Elenco de Lili Inventa o Mundo 2026


 

terça-feira, 7 de abril de 2026

1333- Me dê sua mão (tomo 04) Turnê Paixão de Cristo

              Foi sob o Portão Dourado, um dos oito da cidade velha de Jerusalém, que Ana e Joaquim se encontraram, e ali ela comunicou a concepção de Maria. O casal residia em Jerusalém, ao lado do tanque de Betseda, onde hoje também está localizada a Basílica de Santana, construída no século XII pelos cruzados. Nada é por acaso, são frases, acontecimentos e energias que estão ao nosso redor como ondas de rádio, que vão conectando o ontem e o amanhã. Talvez, nesse tempo de guerras, que coloca em risco as riquezas do passado, venhamos a perder parte da historia que fica encrava em Jerusalém. Mas seguimos com o teatro, como forma de recontar e redescobrir o passado. Não sabemos se ele foi mágico, ou divino, mas é mister contar o passado para as novas gerações. 

                Aos pés da Catedral de Sant'ana em Uruguaiana, no último domingo, um arrepio energético deve ter percorrido os atores e atrizes. A avó de Jesus estava ali presente, com uma congregação que tomou o largo da praça Barão do Rio Branco. Havia um vento frio percorrendo os espaços entre os corpos, de forma que estar amontoados, próximos, era a melhor forma de aquecer o corpo. E foi com essa aquecida unidade de massa humana que os atores foram recebidos, em uma meio a uma grande meia lua, voltada para as escadarias centenárias da edificação monumental. 

                  Era um Jesus pleno que falava com seus colegas de cena, aqueles que haviam decidido seguir não o Nazareno, mas ali o Lorenzoni. Os palcos não eram muito altos, o que aproximava a plateia, a colocava quase dentro da cena. O texto pronunciado com ritmo muito poético foi comovendo e envolvendo e rapidamente o público estava imbuído, mantendo-se firme pelas duas horas de evento. Lorenzoni atua em uma energia perigosa, em um "fio de navalha", deixando as vezes, os colegas tensos, ao mesmo tempo, sempre ligados. Tudo pode acontecer. Marcas mudam de lugar, gestos surgem, ao ponto de o vermos sumir para dentro da igreja no meio da cena. Clara Devi, tentando solucionar pão e vinho, mudando marcas para adaptar-se aos palcos, também merece aplausos, talvez seja essa postura que buscamos em uma atriz de status III (***). Seu visual, mérito do camareiro R.C. ficou esplendido, uma pena terem nos dado esse visual apenas no ultimo dia. Foi a noite também da preciosa Serquevitio. Que elevou a régua do que se espera de um membro do Máschara, sua "Lamassu" vigiou Jesus por todo o espetáculo. Prova disso foi sua presença até mesmo aos pés da cruz, como se observasse se Jesus realmente iria padecer no madeiro. Nem mesmo a pureza do casamento escapou de suas mãos. (***) 

                 O núcleo familiar de Jesus fica muito claro, e a importância desse pilar para a narrativa se estabelece quando Jesus está no topo da escada com a vó, cercado pelo tio Labão, o primo Judas, sua Tia Salomé e logo depois as crianças, seus sobrinhos Hannah, Agnes e Joaquim. A tribo que ele menciona, é a tribo humana, somos todos parentes, todos estamos conectados. Marli Guma representou muito bem a personagem Ana, adaptando-se as escadarias (***), Izis manteve-se de pé junto à coluna, obscurecendo um pouco a cena,(**) e em um momento ficou presa junto ao palco da cruz, enquanto Kaifaz adentrava a cena. Priscila adaptou-se como pode, e infelizmente não esteve no palco pontual a espera da segunda queda de Jesus. (**) Mas foi de uma força magistral em todas as cenas de Maria. Estamos ansiosos por vê-la em novos papeis. Ana Clara Kraemer(**), Kleberson Ben (***) e Renato Casagrande  tiveram a difícil tarefa de vestir os colegas, sonorizar o espetáculo e ainda atuar. Uma lástima o Máschara não ter um profissional da área próprio e unicamente voltado para a parte técnica. Ana é discreta e essa é sua maior qualidade no propósito. Kleberson atua bem, mas deve buscar mais personalidade cênica. Casagrande comanda o show, certamente um ator pronto. Mas precisa ter mais calma nos bastidores. 

                           Esse ano, o Máschara abriu ainda mais os espaços concedidos a artistas de fora, Pejuçara, Soledade e Rosário do Sul se fizeram presentes através de dedicados artistas. Didy Flores por exemplo, cresceu muito, em 2025 havia, se não me engano, interpretado o discípulo Pedro, agora volta com um apóstolo, um soldado e o Rei Herodes, (***) sua atuação na corte deu o tom perfeito da cena e sua triangulação com o restante do elenco foi perfeita. Carol Guma como a temida Herodíades, acrescentou mais uma grande personagem para sua galeria (***), mas foi nos camarins, conduzindo, aconselhando, acalmando, que essa atriz brilhou como uma das "grandes" do Máschara. Gustavo Ferreira, ganhou uma aposta em seu talento, o Judas que construiu foi muito bem preparado, há na gravação  um tom monotônico, que pode ser trabalhado apra os próximos trabalhos. Mas foi como Sansão, conselheiro de Herodes, (**) que o ator foi brilhando e preenchendo com maestria o palco. Na ultima investida porém, me pareceu um tanto over, a sua cena. É preciso cuidar a energia que se dispõe em uma personagem, pois quando se passa da energia podemos colocar em jogo também a atuação dos colegas, véus que caem, exageros em empurrões, etc...  Rosiane Moraes acabou por se tornar quase uma honorária do Máschara, vindo de longe para fazer  parte das fileiras. Sua delicadeza e esforço aparecem na cena, e a garra de sua Samaritana deram o tom no primeiro bloco do espetáculo,(***) com uma intensidade necessária à narrativa. Renam Queiróz(**), Rafael Muller(**) e Gustavo dos Santos (***) cumpriram com funcionalidade seus desafios cênicos. Talvez a direção não tenha deixado claro o suficiente que o menino de primeira cena que estende a mão, se torna mais tarde o apóstolo interpretado por Rafael. Gustavo parece ser um ator bastante humilde com fome de aprender, e se venceu distancias, para dar conta de todos os desafios que lhe foram propostos. Ao lado de Antonia Serquevito e Pedro Loso (***), deram vida a três demônios poderosos, mais que seu texto, somaram à estética, uma organicidade fabulosa. Aplausos para a jovem Tayla Plauts (**), que apesar de ter gravado as falas da segunda aparição da Samaritana, abriu mão para a colega. Palmas para Michely Moura, que no ultimo dia enfrentou novos desafios (**); Ana Costa tornou-se a mãe coragem, (**) que além de ter vários filhos, negou-se em um primeiro momento a entregá-lo vida. Outra característica marcante da atriz, foi sua entrega cênica ao lado de Maria, aos pés da cruz. Ricardo Fenner encarna mais uma vez o velho sacerdote do templo, e faz um bom jogo de cena com Rosber Brandão (***) e com Jesmar Peixoto (***). No núcleo dos poderosos Junior Lemes (**) como Pilatos, foi colocado em um palco distante e acabou brilhando mais como tio Labão. Valentina Lemes (*) esteve bastante ansiosa em cena, e algo aconteceu ante sua entrada na cena da ceia, o que acabou por causando a não distribuição correta dos pães e assim não promovendo a transubstanciação, necessária dentro do significado do cristianismo. 

                Ravi Dantas(**), Aurora Serquevitio(**) e Bella Chiesa(**) roubam a cena, muito bela doçura de suas figuras. Felipe Brandão(**) e Kevin Dijon(**) podem focar mais; Alex Pugliezzi,(**), Giovana Lopes(**), Jesabel da SIlva (**), foram constantes e bons companheiros de cena. Douglas Maldaner e Roberta Teixeira foram intensos, vívidos. Maldaner, tem sim suas dificuldades e vícios cênicos, mas preenche muito bem o palco e é um bom braço direito (***) e Teixeira, vem crescendo nos bastidores, com percepções e criatividade cênica, pena não te recebido um papel de maior destaque (***).

                            A apresentação em uruguaiana foi a ultima da temporada e deixará saudade. O empenho desse grupo que ensina atores e não atores a se posicionarem em um palco a céu aberto, com desafios grandiosos, merece todo o nosso apoio. Ao final o diretor trocou algumas palavras com a assistência, emocionando ainda mais e provando por que artistas são comunicadores.


O Melhor : O vigor dos membros do Maáschara, preparados para enfrentar qualquer tipo de situação sem esmorecer.

O Pior: A iluminação bastante fraca em várias cenas, contrastando com a super produção proposta pela administração e SESC.


Arte é Vida


                        

A família Coelho!!!


 

As mulheres na santa ceia


 

sábado, 4 de abril de 2026

1329 -Me dê sua mão - (tomo 03) Paixão de Cristo Ano VIII

Um teatro de texto

       Teatro tem mais a ver com dramaturgia, do que com texto propriamente dito, mesmo porque muita coisa é dita através da semiótica, sem a necessidade da verbalização. No entanto, há textos que são verdadeiras poesias, e que tem como qualidade, valorizar a palavra dita, bem pronunciada. De todos os textos escritos para as oito edições de A paixão de Cristo, do Máschara, esse ultimo foi o que mais me tocou, mais me fez refletir, me fez ver realmente do que se está falando e do que se trata esse gênero teatral.
               O jogral dito por todo o elenco, cria uma força poderosa, e é interessante perceber ali, que o teatro é pleito, é grito, é revolta. É força! Todo o prólogo me faz pensar em várias questões: eu saí de casa realmente, para ver teatro, não para ver apenas uma encenação. O teatro é gangrena, como já dizia Nelson Rodrigues, é ferida aberta. Nossas feridas estão todas abertas. O Jesus de dois mil anos atrás, segue dentro de cada um de nós. ELE, que foi antes de tudo um poeta, como já dizia Oscar Wilde, deixou um tributo ao amor. O Amor! Mas nós, no mundo atual, somo incentivados, todos os dias, a sermos egoístas, a buscarmos nosso lugar, a nos defendermos, a vencermos, e muitas vezes, passarmos por cima de outros. Para amar do jeito que Jesus falava, é preciso baixar a guarda, é preciso todos os dias, trabalhar a humildade, o desprendimento... 
                A estruturação do espetáculo segue a linha perfeccionista do diretor. Prólogo (enunciado), ato I (ensinamento), ato II (queda do herói), Epílogo (gloria). A análise ativa de Stanislavsky é perfeita, visível, quase como se fosse um espetáculo cientifico. Técnica é a melhor forma de brindar o público. Na técnica não a espaço para a mediocridade, a barriga ou o fracasso. Mesmo quando é ruim, é bom! Técnica e talento aliás, são pontos muito discutidos. Os talentosos se apagam, os técnicos permanecem. Sobre o palco há o voluntário, imbuído em acertar, iniciante. Há o ator dito talentoso, que tenta sensivelmente acertar e marcar e há o ator técnico. Talento é passageiro e baseado em uma luz, uma força que com o tempo perde o viço. O ator técnico é lutador, está sempre buscando, estudando, treinando. 
                  O máschara desenhou o ato primeiro de uma forma mais lenta, morosa, para cumprir o seu golpe no segundo ato. A aparição de Jesus entre as pessoas, no lado contrário ao da encenação, foi precisa, e emocionou enquanto surpreendeu. O público derramou lágrimas, e lágrimas são luxos hoje em dia, derramar lágrimas para muitos, significa fraqueza. Chorar e ver as verdades do mundo com grandeza de sentimentos, é na verdade força.
                     No primeiro ato, o maior destaque da cena é do ator Gustavo dos Santos, que interpreta o demônio, e depois um soldado. Sua humildade em buscar, apreender conhecimento, atuar com vivacidade, merece aplausos. Margareth Medeiros é grande, única, intensa em seu "nazareno"!
                         A Magdalem de Devi, se destaca, preenche o palco, com brilhantismo. Renato Casagrande comanda o segundo ato e merece aplausos sempre. Junior Lemes é presença firme, em todo o dia de batalha, e torcemos por sua entrada ao Máschara. 
                            Parabéns a Antonia Serquevitio, que é partner, é luz na escuridão e no vazio, talvez intensa demais fora de cena e devesse puxar essa intensidade para o palco. 
                              Ao final da cena, havia uma satisfação, um clima de conexão entre público e elenco, eis o verdadeiro fenômeno dramático, como diria Augusto Boal. Talvez as crianças pudessem ter feito sua aparição no palco. Talvez Herodiaze pudesse entrar com vinhos e uvas.  Talvez o Centurião tenha colocado em risco as cenas de Pedro ao perder o capacete. Talvez a experiência final com o corpo santo, tenha se mostrado estranha. Diálogos muito altos na "gólgota" colocam em risco a veracidade da cena. 
                               Teatro é estudo, busca, apropriação, veracidade, sacrifício. A paixão de Cristo, é mais que um teatro comunitário, e menos que um teatro técnico, mas serve de treino para quem busca sua própria potencialidade cênica.   

Arte é Vida

A Rainha

ANA CAROLINA COSTA  (**)
  ANTONIA SERQUEVITIO  (**)
 CAROLINE GUMA  (**)
 CLARA DEVI DA COSTA   (***)
 DOUGLAS MALDANER  (**)
 GUSTAVO DOS SANTOSFERREIRA  
Gustavinho (***)

 GUSTAVO FERREIRA (**)
 JESMAR PEDRO FREITAS PEIXOTO  (**)
 JEZABEL NOGUEIRA DA SILVA (**)
 KLEBER LORENZONI (ancião)
 KLEBERSON BEM BORGES  (**)
 MARGARETE MEDEIROS ARAUJO (**)
 MARLI CHRIST GUMA (***)
 PEDRO HENRIQUE MORAES (***)
 PRISCILA CHIESA LEMES  (***)
 RAFAEL SOARES MULLER (**)
 RENAN QUEIROS OLIVEIRA (**)
 RENATO CASAGRANDE (ancião)
 RICARDO SANTOS FENNER  (ancião)
 ROBERTA TEIXEIRA  (***)
 ROSBER CULAU BRANDÃO (**)
 ROSIANE TEIXEIRA MORAIS (**)
 VALDIR TOLFO FLORES  (**)
 JUNIOR LEMES (***)
 ALEX MMONTEIRP PUGLIEZZI (**)
 ANA CLARA KRAEMER  (**)
 ANA LETICIA DA SILVA (**)
 AURORA SERQUEVITIO MALDANER (**)
CECILIA MORAES SEVERO  (**)
 FELIPE CHAVES BRANDÃO  (**)
 GIOVANA DA SILVA LOPES (***)
 IZABELLA CHIESA LEMES   (**)
 IZIS ROSA DA SILVA (**)
 KEVIN DIJON PADILHA  (**)
 MICHELY VICTORIA CAVINATTO DE MOURA  (***)
 RAVI DANTAS QUARESMA  (**)
 THAYLA NOGUEIRA PLAUTZ  (**)
 VALENTINA CHIESA LEMES  (**)


                                   

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Renato Casagrande e a pequena Bella Chiesa


 

O ator e diretor Renan Queiroz como João Batista

 


1328- Me dê sua mão - (tomo 02) Turnê Paixão de Cristo

          De todas as artes, o teatro é talvez, a mais estreitamente condicionada pelo momento cultural que a  produz. E quanto mais válida, mas condicionada e mais expressiva dos fatores condicionantes. Todo dramatista que procurou alcançar ideias literários arbitrários e escrever fora do seu tempo foi irressarcivelmente  condenado ao esquecimento: todos os grandes nomes do teatro universal, são acima de tudo produtos exatos do momento que viveram. As grandes obras que sobreviveram através dos séculos adquiram contemporaneidade diacrônica por meio de uma riqueza nascida do profundo conhecimento que o autor teve pelos homens da sua época. Pelo particular, ou seja, as historias que os cercam, as dores que viveram, atingiram resultados que são capazes de entrar em sintonia com homens de várias épocas que se aproximam mais ou menos do clima do momento da criação da obra.

        Seja como for, mesmo as mais permanentemente contemporâneas dessas obras, sempre foram sujeitadas em suas remontagens,  às dominantes culturas do momento de suas releituras. Quando o bardo elizabhetano escreveu Rei Lear, ou quando Lorca escreveu A casa de Bernarda Alba, ou quando Molière, enfrentou a corte de Luís XIV com seu Lê Tartufe, estavam em verdade, falando de suas realidades. Quem conhece o Grupo Máschara de perto, ou frequenta os ambientes palacianos de sua sede, sabe exatamente o que está em jogo na hora da cena, sabe o que está na poética entrelinha do texto.

                       A cada ano, o texto se afasta mais do simplório olhar que temos da passagem bíblica, para alcançar lugares de reflexão que fazem sentido aos atores mais próximos ao dramaturgo. " A cúpula de fogo" do Palacinho do Máschara decidiu falar do idoso, da mulher e da criança. Todos obviamente, variações de um mesmo Jesus. As personas que o habitam, já que ele é o senhor do presente, do passado e do futuro. 

                         Ao seu redor, pairam atores de carreira, grandes, densos. Soma-se a isso uma equipe de não atores, que pisa no palco com garra de artista. É preciso assim como o Cléber Lorenzoni de Jesus, vestir a camiseta, mergulhar em sua realidade. É preciso que cada interprete vista a camiseta de seu personagem. "Seja ele" durante a temporada. É o que se espera ao menos dos grandes atores. 

                              Na apresentação de Tuparendi, que mais aprecia um perímetro Grego, onde sacerdotisas e semideuses flutuavam, pudemos presenciar grandes atuações. Entregas estéticas e verdades pontuais. Não há como não mencionar a disponibilidade cênica de Antônia Serquevitio, a emoção de Margarete Medeiros, o esforço de Ana Costa o virtuosismo cênico de Renato Casagrande a triangulação pontual de Didy Flores.  Clara Devi tem nos dado uma Maria de Magdalem interessante, algo diferente das anteriores que ainda não sei ao certo o que é. Meus netos que amam teatro, sempre se emocionaram nas cenas em que Jesus é vandalizado, mas acredito que na apresentação mencionada, alcançamos lugares muito potentes. Parabéns aos diretores de palco e coreógrafos de cenas. As aias da "noiva" precisam ensaiar mais a coreografia de sua entrada. Em alguns momentos o cerimonioso do espetáculo peca. Kaifaz pode diminuir a palidez. Andar menos pelo lugar. Ele é a mente, Anaz é o movimento! Parabéns aos iniciantes, estão muito dedicados. Thayla pode ensaiar mais a cena da noiva, embora tenha um olhar muito cênico. Alex precisa fica mais concentrado e Kevim, pode aparecer mais nas cenas.  Aplaudível a dedicação da atriz Rosi Teixeira.  

                                 Emociona-me ver as cenas com os pequenos, principalmente porque estamos falando do futuro do teatro. Do palco, jorram momentos estéticos, mesmo quem não sabe o que está fazendo em cena, está sendo estético, graças a direção do espetáculo. Observai sua estética, tome ciência dela. Quisera eu ser uma atriz, não tenho talento para tal, mas observando cada movimento, cada ação, dá para ter certeza do quanto é valoroso cada lugar no palco. Cada personagem ou tipo mereceriam um texto inteiro. Desde a menina que carrega uma taça, até quem fica ao fundo parado. Tudo atua junto. Renan Queiróz abre a cena, impactante, ao lado de todo o elenco, e vemos dois diretores ali, primos, irmãos em lutas teatrais. Um símbolo forte para o teatro.

                                    A mesma canção do prólogo volta no epílogo, com a doçura que deve ter o compositor que a escreveu. O texto final aprece um tanto exagerado. Triste demais... mas me deixei levar. E aplaudi demoradamente assim como o restante do público de Tuprendi. Parabéns a Ana Clara Kraemer e Douglas Maldaner por suas presenças de palco. 

                                      Para encerrar, um ultimo elogio aos familiares que apoiam todos esses artistas. É preciso sentir-se pleno, amado e apoiado para produzir tanto encanto, para pisar no palco com segurança e nos dar uma arte tão verdadeira.


Arte é Vida!!!!

Turnê Paixão de Cristo - Me dê sua mão
 
 
 
Direção e roteiro - Kléber Lorenzoni
 
Assistência de direção- Renato Casagrande
 
Produção - Kléber Lorenzoni
 
                   Carol Guma
 
                   Renato Casagrande
 
Trilha- Renato e Ana Clara
 
Adereços-Douglas, Didy e Junior-
 
Adereços- Roberta, Antônia e Felipe-
 
Figurinos-Clara, Valentina e Kleberson-
 
Listas -Carol e Vovô -
 
Costura-Priscila, Marli, Rosi, Margareth e Giovana-
 
Elenco 

 ANA CAROLINA COSTA  (***)
  ANTONIA SERQUEVITIO  (***)
 CAROLINE GUMA  (**)
 CLARA DEVI DA COSTA   (**)
 DOUGLAS MALDANER  (***)
 GUSTAVO DOS SANTOS FERREIRA  
Gustavinho (**)

GUSTAVO FERREIRA (***)
 JESMAR PEDRO FREITAS PEIXOTO  (**)
 JEZABEL NOGUEIRA DA SILVA -
 KLEBER LORENZONI (ancião)
 KLEBERSON BEM BORGES  (**)
 MARGARETE MEDEIROS ARAUJO (***)
 MARLI CHRIST GUMA (**)
 PEDRO HENRIQUE MORAES (**)
 PRISCILA CHIESA LEMES  (***)
 RAFAEL SOARES MULLER (**)
 RENAN QUEIROS OLIVEIRA (***)
 RENATO CASAGRANDE (ancião)
 RICARDO SANTOS FENNER  (ancião)
 ROBERTA TEIXEIRA  (**)
 ROSBER CULAU BRANDÃO (**)
 ROSIANE TEIXEIRA MORAIS (***)
 VALDIR TOLFO FLORES  (***)
 VERGILIO JUNIOR LEMES (***)
 ALEX MMONTEIRP PUGLIEZZI (*)
 ANA CLARA KRAEMER  (***)
 ANA LETICIA DA SILVA -
 AURORA SERQUEVITIO MALDANER (**)
CECILIA MORAES SEVERO  (**)
 FELIPE CHAVES BRANDÃO  (**)
 GIOVANA DA SILVA LOPES (**)
 IZABELLA CHIESA LEMES   (**)
 IZIS ROSA DA SILVA (**)
 KEVIN DIJON PADILHA  (**)
 MICHELY VICTORIA CAVINATTO DE MOURA  (**)
 RAVI DANTAS QUARESMA  (**)
 THAYLA NOGUEIRA PLAUTZ  (**)
 VALENTINA CHIESA LEMES  (**)