Assisto aos espetáculos do projeto Paixão de Cristo do Grupo
Máschara, desde sempre, desde quando em 2017, o então produtor Ricardo Fenner e
o diretor Kléber Lorenzoni, tiveram a feliz ideia de promover esse espetáculo
na cidade. O que sempre me encantou, foi a valentia com que enfrentaram e
enfrentam tantas dificuldades para levar ao palco o trabalho de grande
qualidade que promovem. A plateia não tem ideia de tudo que se encara para
colocar um espetáculo no palco, ao ar livre e com mais de trinta pessoas em
cena.
A cada ano, a dramaturgia do Máschara passeia por lugares
mais perigosos, mudando fatores, personalidades e até peripécias, enfrentadas
pelas personagens. Logicamente, essa ousadia é o que nos interessa, nos aguça a
curiosidade. A ideia, acredito eu, seja declarar ao público que se Cristo
retornasse hoje, certamente seria também crucificado. No centro da cena, um
Jesus muito mais maduro, que compreende melhor as paradoxais linhas
existenciais do Messias. Isso em verdade é que torna Jesus um personagem tão
interessante. Ele se revolta, ele clama por uma solução. Ora se entrega, ora
faz poesia, ora conta suas parábolas, ora fraqueja. Esse é o tempero do palco:
a dúvida e a angustia que ela promove.
O Teatro Medieval enquanto gênero, sucumbiu quando a igreja
chegou a conclusão que atores poderiam afastar as pessoas dos caminhos
considerados corretos pelo clero. Antes as peças eram originalmente textos
encenados pelos membros clericais após as missas ou procissões e tinham como
temas: as passagens bíblicas, os milagres, os mistérios, os sermões, os autos
sacramentais, as biografias de santos e os dramas litúrgicos. Muitos deles eram
apresentados em latim. A igreja censurou os artistas pelos séculos, e talvez
ainda use seu pesado cetro da "verdade", para censurar, no entanto o homem
contemporâneo parece não se permitir algemar, talvez por que tenha se dado
conta que a arte liberta mais que qualquer aprisionamento religioso.
O ambiente propicio de uma noite quente e ao mesmo tempo
ventosa, pareceu dar o tom necessário para as convenções de uma historia que se
estendia desde o Monte das Oliveiras, até o Santo Sepulcro. Eis outro mérito do
teatro: bastava um gesto, uma virada de cabeça e voilà, estávamos em outro
cenário. Como em um passe de mágica, o Cenáculo se tronava Sinédrio, e logo
depois em sala do trono do Rei Herodes.
Me dê a sua mão, encontrou várias dificuldades técnicas,
tanto no palco quanto por traz dele. Erros mínimos de iluminação e execução de
sonoplastia... Falta de diálogo, de preparo, talvez. No entanto não podemos
permitir que o teatro seja prejudicado pela incompetência ou a preguiça. A
iluminação, teve falhas técnicas que se mostraram evidentes ao público, com
momentos de sombras que prejudicaram várias cenas. O espaço pequeno de um
anfiteatro grego, ajudou o público a mergulhar na trama, mas pode ter confundido
a assistência, já que tudo acontecia em um mesmo lugar, sem uma transição mais
adequada.
O mais poderoso dessa versão de A Paixão de Cristo, era sem
dúvidas, a perfeita comunicação entre tradição e histórica e tradução
contemporânea. A visão de Batista entre o povo no prólogo, reunido com um povo
sofrido, representado em cores embaçadas, tingidas, contrastava dali a pouco
com as cores fortes dos primeiros discípulos. Claro que o "grenal"
estabelecido entre homens e mulheres seguidores ficou bem perceptível, mas isso
só revela o poder estético da cor. Jesus não usar branco, também é um achado e
ajuda a afastar a narrativa de clichês. É preciso claro, tomar cuidado com
amarrações ruins, panos que caem pelo palco, perucas que devem estar bem
assentadas e chapéus bem-acabados. É no detalhe, no mais pequeno detalhe que
vive a arte do Máschara.
Dentre tantos talentos sobre o palco, é preciso aplaudir os
"fortes" que estão juntos ao projeto desde seu principio. Aplaudir os
voluntários de fora de Cruz Alta, ainda não conheço a todos, mas são sem
dúvida, lutadores da arte. Cada figura tem um universo muito próprio, o que é
mérito de Renato Casagrande que assina os figurinos. Clara Devi, Ana Kraemer e
Kléberson Ben, são a geração de jovens aprendizes que somam muita leveza e
unidade ao vestir as "sobreposições" do Máschara, um elenco tão
diverso. É difícil saber os nomes de todos, algo que vou ir aprendendo conforme
acompanho, ainda que de longe, a turnê. Mas quero aplaudir as atuações de
Prsicila Chiesa como Maria e Carol Guma como a pérfida Herodiase. Os três
demônios, juntos como se fossem uma só força, mas cada um com uma
personalidade: O homem de preto, com cartola, buscando a sabedoria, o ser
rastejante, lamentador, onde penso que seria interessante rever o "costume"
e ainda a figura feminina, como uma Lilit, sedutora e perigosa. Os três juntos,
formam uma tríade que atenta o protagonista e conseguem acrescentar bons
momentos de tensão ao espetáculo. Pena sua cena ter poucos recursos visuais,
caberia fumaça, escuridão, etc... Giovana Lopes também se destaca, em uma
Salomé intensa e bastante complexa, ainda que seja uma atriz bastante jovem.
Cenas como a da avó Ana e da criança que ressuscita, arrancaram lágrimas até
dos mais séticos.
O Máschara segue sendo um grande fomentador de talentos. Sua
direção busca a perfeição do gesto, a amplitude das emoções, e a organicidade
da pronuncia do texto. Nunca se viu tantas versões de um teatro religioso sobre
a vida de Cristo e isso parece ter motivos muito claro: A sensação de reconexão
do homem com o divino/espiritual que há em si, ou a necessidade de grupos
artísticos em lucrar com uma forma quase certa de tocar o público e alcançar
"sucesso". Grandes atuações brilharam, nesse texto que reverencia a
figura feminina.
Talvez o ator que interpreta o Centurião, pudesse ser mais
atuante, mais proeminente, como líder. Acredito que na cena do julgamento,
aconteceram alguns resvalões, roupas marcadas, falta de elmos, embromações,
enfim, coisas que colocam em risco as principais características do trabalho do
Máschara. Por isso é preciso que cada um se desdobre para manter o nível da
proposta. Cecília Moraes também merece destaque pela organização e eficiência,
assim como a jovem intérprete de Salomé, ainda tão menina, e mesmo assim tão
poderosa no palco, segura de suas ações.
A turnê Me dê sua mão, começou com uma garra muito bonita,
ainda que continue havendo pouco incentivo aos artistas em nosso país, a forma
como o Máschara consegue padronizar a equipe, unir pessoas, e contar uma
historia de forma cativante e coerente, me emociona. A frieza e a formalidade
de algumas cenas, conseguiu dar um contraste interessante, e talvez agregar
mais peso ao espetáculo. A trilha é sensível, com escolhas pontuais e
arriscadas, com temas de filmes marcantes, que parecem conversar de forma
coerente. Parabéns a Kleberson Ben, e Ana Kraemer.
Me dê sua mão, entra para a historia, como um dos espetáculos de grande
valor estético e humano do Máschara.
Turnê Paixão de Cristo - Me dê sua mão
Direção e roteiro - Kléber Lorenzoni
Assistência de direção- Renato Casagrande
Produção - Kléber Lorenzoni
Carol Guma
Renato Casagrande
Trilha- Renato e Ana Clara
Adereços-Douglas, Didy e Junior-
Adereços- Roberta, Antônia e Felipe-
Figurinos-Clara, Valentina e Kleberson-
Listas -Carol e Vovô -
Costura-Priscila, Marli, Rosi, Margareth e Giovana-
Elenco : ANA CAROLINA COSTA
(**)
ANTONIA SERQUEVITIO (***)
CAROLINE GUMA (***)
CLARA DEVI DA COSTA
(**)
DOUGLAS MALDANER (**)
GUSTAVO DOS SANTOS FERREIRA
(**)
GUSTAVO FERREIRA (**)
JESMAR PEDRO FREITAS PEIXOTO
(**)
JEZABEL NOGUEIRA DA SILVA -
KLEBER LORENZONI (ancião)
KLEBERSON BEM BORGES
(**)
MARGARETE MEDEIROS ARAUJO (**)
MARLI CHRIST GUMA (**)
PEDRO HENRIQUE MORAES (***)
PRISCILA CHIESA LEMES
(***)
RAFAEL SOARES MULLER (**)
RENAN QUEIROS OLIVEIRA (**)
RENATO CASAGRANDE (ancião)
RICARDO SANTOS FENNER
(ancião)
ROBERTA TEIXEIRA (**)
ROSBER CULAU BRANDÃO (**)
ROSIANE TEIXEIRA MORAIS (**)
VALDIR TOLFO FLORES
(***)
VERGILIO JUNIOR LEMES (**)
ALEX MMONTEIRP PUGLIEZZI (**)
ANA CLARA KRAEMER
(***)
ANA LETICIA DA SILVA -
AURORA SERQUEVITIO MALDANER (**)
CECILIA MORAES SEVERO
(***)
FELIPE CHAVES BRANDÃO
(**)
GIOVANA DA SILVA LOPES (***)
IZABELLA CHIESA LEMES
(**)
IZIS ROSA DA SILVA (**)
KEVIN DIJON PADILHA
(**)
MICHELY VICTORIA CAVINATTO DE MOURA (**)
RAVI DANTAS QUARESMA
(**)
THAYLA NOGUEIRA PLAUTZ
(**)
VALENTINA CHIESA LEMES
(***)
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