sábado, 4 de outubro de 2025

1263-O Incidente (tomo 94)

                 
                  Nós somos reflexo de nossas ações, de nossos sacrifícios, de nossos desafios, escolhidos por nós mesmos!


                  Quando Shirley Terezinha abriu o espetáculo O Incidente, ela disse: Boa Noite! Naquele instante viajei para muito longe, viajei para uma aula que presenciei a muito tempo, ministrada pelo Máschara, em um dia que levei minha neta para tentar fazer teatro. Sentada a um canto eu me recordo de quando o professor fez um paralelo muito interessante entre atuar, encenar e interpretar. Não lembro exatamente cada detalhe da interessante explanação, mas me marcou o exemplo que deu referindo-se a uma atriz que é convidada para fazer o papel de Maria em uma quermesse. Pelo olhar do instrutor, uma atriz que apenas sorri e acena, supostamente como Maria, não está interpretando. Interessante observar sete atores interpretando sete mortos e preenchendo com vida, espaços que precisam não ter vida. 
                         Um cinema, lotado na cidade de Alegrete/RS, serviu de palco para cinquenta minutos de um arrojado espetáculo, que sem duvida nos deixa com vontade de ler a obra O Incidente em Antares. Erico, em sua ultima obra, como muitos escritores modernistas da década de trinta, decide falar da efervescência política e de acontecimentos que permeavam a vida das grandes cidades. Violência e autoridade são presenças constantes na pequena Antares, e dali surgem criaturas que Verissimo pinta com uma ambivalência muito interessante para o público. Já aprendemos que Cléber Lorenzoni foge das regras da academia e prefere sempre apostar na menipeia em suas obras, mas o que me surpreende e que certamente é o que mais prende o público adolescente, é o conceito de "carnavalização do inferno", ou seja, o julgamento às portas do inferno, servindo de comicidade para o público. Erico produz um momento anacrônico entre vivos e mortos, julga uma cidade inteira e as ações de seus cidadãos vivos e mortos. Ora, mortos podem ser chamados de cidadãos? E quem produziu tudo isso? Um grupo de funcionários públicos, que entraram em greve e exigiram ser atendidos. Os poderosos, negando-se a ouvir os grevistas, precisam ouvir os mortos. As ofensas escatológicas que se apresentam no coreto, lembram-me a a poesia de Rebelais, poeta da renascença, que obrigou os ricos a rirem de seus próprios pecados, o que não lhes era, obviamente permitido, nos altares sagrados da profissão litúrgica do catolicismo. Ali, pecadores eram culpados e condenados, em silêncio, enquanto todos ouviam de orelhas em pé e joelhos prostrados. No entanto a expiação dos pecados em O Incidente se dá em praça pública. Tibério, a filha de Quitéria, o próprio Pudim que batia na esposa envenenadora, o delegado Pigarço, o boquinha de ouro, seu capataz, o doutor cícero (advogado do diabo), Dr. Lázaro, Dr. Fulkembrug, que não conseguiram remédios para Erotildes, e finalmente, o público, rindo do pobre professor Menandro Olinda. Todos com passagem direta para o "ranger de dentes" nas fogueiras do averno. 
                       Entre rostos conhecidos, o ator Didy Flores, em um novo ciclo que se inicia. Adentrar ao palco ao lado de atores de carreira, mergulhados em um estilo de interpretação não é fácil, mas Flores conseguiu preencher muito bem o palco, mérito também do trabalho de equipe, de cada colega que o guiou. Alguns resvales, naturais em uma estreia. Uma pena trocar bosta por droga, por ser um espetáculo de choque, precisamos sair de nossa zona de conforto, ouvir as cosias bem ditas e um pouco agressivas. O ator Junior Lemes esteve muito bem, ritmado. Lorenzoni estava diferente, seu Cícero perambulou por  caminhos diferentes nesse dia. Guma pareceu cortar a interpretação e degustação da cena do piano de Menandro Olinda, e o mesmo, talvez tenha sido muito agressivo em seu solilóquio. Sobre Renato Casagrande, ele tem em Olinda um desafio que eu não desejaria para ninguém, fazer todo um solilóquio, inspirado na trilha sonora, o que certamente o deixa um pouco gessado. Pensem comigo, se em um dia o ator precisa de uma pausa maior, ou precisa acelerar para segurar a plateia, não poderá? Está escravo da batida da sonata 23 de Bhettoven. Escolhas da direção?  De toda forma, atores intensos, em um espetáculo que se adequa a qualquer palco, com qualquer aparato cênico, o que é maravilhoso já que é difícil em suas andanças encontrar espaços próprios para teatro. Mas a arte precisa continuar! Se cada artista desistir de fazer seu trabalho, de praticar seu oficio, apenas por que não havia um contra luz, ou uma cortina, ou sei lá o que, o teatro não seria a força de resistência que ele é. 
                         Parabéns a feira de livros de Alegrete/RS por mostrar textos tão relevantes ao público. Parabéns a equipe em status cinco, vocês são o futuro da Cia. Aprendam, suguem, perguntem, ouçam de ouvidos bem limpos, aprende-se mais ouvindo e observando do que de qualquer outra forma. Aprendi a algum tempo em espetáculos de Lorenzoni, ouvir de vez em quando um estalar de dedos, acho que sei o que significa, nesse confesso não ter ouvido. Isso diz tudo.

Arte é Vida  





A Rainha




O Incidente 
Texto e Direção Kléber Lorenzoni

Elenco Kleber Lorenzoni , Carol Guma, Renato Casagrande, Clara Devi, Antonia Serquevitio. Douglas Maldaner, Junior Lemes, Didy Flores.

Contrarregragem Kleberson Ben Borges, Ana Clara Kraemer, Roberta Teixeira, Felipe Brandão

                      
                              


A Atriz Antonia Serquevitio- Plena como Erotildes


 

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

1256 - Rei Lixo/Rei Lear (tomo 02)

                         Quando Goneril e Regana encontram um bebê no lixo, e o devoram, estão resumindo todo o espetáculo, essa cena quase poderia ser o prólogo do espetáculo. Mas de forma muito pertinente, acontece exatamente quando sabemos que não há mais volta. Lear sucumbiu na cena da tempestade, e a sua existência chegou a finitude. Não haverá continuidade, elas estão acabando com o novo e com o velho. Poucos instantes ele havia dito: Foi-se a honradez. O ciclo encerrou-se. Quando um ancião parte, a natureza oferece um novo caminho. Os adeptos da monarquia costumam dizer: The King is dead. Long live the King! Que exprime a premissa de que um rei parte e novo rei deve assumir, no mesmo momento, não há tempo para lágrimas, a vida precisa seguir seu curso. Em Rei Lixo/Rei Lear, não há um rei para assumir. E é exatamente o que a cena do bebê significa, devora-se o novo também. A alegoria é muito clara. 

                      Eu mesma, como anciã que sou, percebo um dos maiores medos e dores de Lear, saber que seu legado está perdido, esse apego material dos grandes líderes, tem a ver com o quanto de si colocaram em algo. Ou seja, uma vida inteira dedicada ao oficio, que se perde quando Cordélia não se curva. Ao não demonstrar a faceta necessária para o jogo, Lear sofre mais por ver que a filha não está preparada. O velho rei deve pensar: -Estamos em maus lençóis! 

                      Lear subiu ao palco no dia 14 de setembro, exatamente no mesmo dia em que Tartufo de Molière em 14 de setembro de 2008, quando no elenco Gabriel Wink, Dulce Jorge, Kléber Lorenzoni, Renato Casagrande, Fefa Perez, Tati Quadros. Lá quem salvava a trama também era o Rei, uma alusão à Luís XIV da França. O atual elenco pode ser comparado àquele também bravio elenco, pela linda entrega, pela força e energia. Ana Costa, Carol Guma fazem uma dupla muito eficaz. Junior Lemes, que pode melhorar a dicção, esteve completo, intenso. Renato Casagrande rouba a cena e excursiona por lugares interessantes da psique humana, brincado com a mente dos Duques de Gloster: Glocester e Edgar. O espetáculo encerra com o peso da tragédia, foram-se bons e maus, restando apenas o jovem Edgar, cujo interprete aliás, precisa se ater ao clima de cena final. Lear morreu e ao invés de dar o tempo, a pausa o silêncio necessário, Maldaner já sai falando a fala final sem permitir que sentíssemos o que estava acontecendo. Ele não pode ser Rei, o bando está acabado. Esse é o maior fracasso dos ruins, eles desejam o que os homens honrados e batalhadores constroem, mas não tem força para manter, para fazer crescer. 

                       Ao contrário de muitos outros espetáculos, Rei Lixo é um trabalho que coloca em jogo muito da capacidade da plateia. A trama é simples, mas há tantos signos, que uma audiência, em sua maioria despreparada, tem certa dificuldade para decodificar. E isso reitera a necessidade de mais e mais teatro. Para pensarmos "fora da caixa", para olharmos o mundo de outras formas, para vencermos preconceitos. Para rirmos da desgraça e chorarmos na conquista. Aliás muito percebi em quem estava próximo a mim, uma diversidade de sensações. Nojo, lágrimas, risos, risos abertos e risos tímidos, dúvidas, curiosidades... O teatro destaca-se exatamente por não se subjugar a modismos, ou ao comercial. Ele é em si mesmo,  único e justificável. Kléber Lorenzoni e Antonia Serquevito podem e devem buscar mais detalhes da energia de seus corpos animalescos, para não destoarem do restante do elenco. Parabéns à Gabriel Ben pela presença leve e ao mesmo tempo pesada de seu bobo. 

                       Os figurinos, cenários, trilha e iluminação, obtiveram bons resultados e apresentam uma unidade representativa. Palmas para a pichação no fundo do palco. Palmas para o trabalho em equipe que coloca o Cena Às 7 no palco desde 2005. São vinte anos que esses esforçados artistas nos brindam com um teatro de qualidade. 

                    O teatro é uma chama que queima, viva, intensa, as vezes você não sabe de onde vem essa chama, sente apenas o odor intenso, que consome tudo e todos. Procura por todos os lugares, e então acha dentro de si, no mais fundo do teu interior, uma brasa, uma centelha que queima quietinha e teima por se manter viva. Podemos tentar afogá-la, jogando baldes de água, devido às nossas dúvidas e angustias, podemos nos desmotivar, podemos fugir, buscar culpados. Mas o fato é que se realmente fomos tocados pela chama do teatro, essa paixão continuará ali. Sempre. 

                         Acho importante e necessário, a equipe escolher qual realmente será o titulo do espetáculo e assumi-lo com coragem.


                           A Rainha   



Rei Lear/Rei Lixo

Transcriação e Direção- Kléber Lorenzoni

Cenário e Maquiagem - O Grupo

Figurinos - Renato Casagrande 

Sonoplastia - Clara Devi

Adereços - Kleberson Ben

Iluminação - Ana Clara Kraemer

Contrarregragem Roberta Teixeira, Felipe Brandão 

Portaria - Didy Flores e Priscila Lemes

Elenco - Kleber Lorenzoni, Renato Casagrande, Carol Guma(**), Douglas Maldaner(**), Ana Costa(***), Antonia Serquevitio(**), Junior Lemes(**), Kleberson Ben(***)                 


                       Arte é Vida