1206 - Complexo de Electra - tomo XXII

O MOTE BALIZADOR

                                      Até onde um grupo de teatro pode ir? Até onde uma narrativa pode ousar? De quais temas pode fazer uso para tocar o público? Um jovem ambicioso e sem noção, pode dizer:- Qualquer assunto, tema, ou ousadia... -Estará errado e ainda colocará em risco sua carreira, pois poderá chocar ou subestimar seu público. O balizador de tal conexão arte x público, é exatamente sua auto percepção cultural e a compreensão do habitat cultural ao seu redor. Ou seja, é preciso perceber a capacidade de absorção do público, compreender sua própria capacidade e entender para onde se quer levar o público. Ora, se eu passar uma vida inteira dando teatro de comédia para o público, como chegarei um determinado dia e lhes obrigarei a assistirem drama?

                                              Ou, chegar a uma cidade onde nunca se viu teatro e oferecer um espetáculo como Complexo de Electra. A maioria dos artistas sempre se coloca em um lugar onde julga que sua arte é muito importante, que deve ser vista e que as plateias tem obrigação de aceitar. Não é verdade. Quando pensamos em toda a historia do teatro, suas linhas de pensamento, precisamos compreender que houve um teatro para cada época, para cada ciclo, houve uma linguagem que prevaleceu em cada época, e houve uma capacidade de compreensão diferente em cada época e em cada lugar do mundo.

                                                 O   que mais admiro no Máschara, é a curva organizada que seu diretor, ou seus diretores planejaram. Primeiramente comédias (Um dia a Casa Cai, Dor de Dente, Bruxinha e Júpiter) logo depois uma tragicomédia (Cordélia Brasil), então um grande teatrão infantil-(Bulunga), Para então ir para Nelson (Dorotéia) Aí tivemos um clown [palhaço (Conto da Carrocinha)], para só então chegarmos aos clássicos: (Antígona, Tartufo e Macbeth) - Ou seja, primeiro preparou-se o público, para o que viria a seguir. Isso quer dizer, balizar, entender, estabelecer. É preciso saber se o público terá capacidade de fazer a leitura semiótica de um tipo de teatro, e é preciso não superestimar também o público. Se nem mesmo alguéns atores conseguem compreender as linguagens empregadas por diretores, por que o público conseguiria tão facilmente tal façanha? 

                                                                       Por isso senhor artista, leia, leia muito, jovem ator, busque, pergunte, indague, sacrifique-se um pouco... A arte não é somente algo bonito, não é apenas o ato de satisfazer a ambição própria de receber aplausos, ela é um dever junto ao tecido social, e precisa ser baseada também nos princípios filosóficos de um povo. É preciso codificar as linguagens, compreender e saber, por que determinada obra será levada à assistência. "Gosto muito de Maria Stuart de Schiller"!- Problema seu, por que esse texto sobre duas mulheres, duas rainhas, que brigam pelo poder, seria importante para o público de Cruz Alta? Eu vejo vários motivos, me digam os seus!

                                         O Complexo de Electra enquanto exercício ( é isso que seu diretor sempre fala), pode encontrar virtuosismo junto aos públicos, Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande e Fábio Novello estão muito bem em cena. Muito embora o mergulho nas profundezas do ser humano ainda pode ser maior. Clara Devi parece ter iniciado uma caminhada nesse universo psicológico, Douglas Maldaner precisa por para fora um grito interior que para esse tipo de teatro é extremamente necessário. Leonardo Teixeira e Romeu Waier fazem pequenas participações funcionais, e no caso desse último plasticamente linda. 

                                        Um dos grandes méritos do trabalho, é que apesar da mudança de elenco, a construção e o braço firme da direção continuam na direção certa. Uma pena claro não ser um mergulho da Cia. inteira. Ainda há muitos atores que quando não fazem parte de um elenco pensam: -No que isso diz respeito a mim?  Palmas para a cena da curra, palmas para o embate entre mãe e filha, palmas para o bife de Úlrica e palmas para a desconstrução que Casagrande vai propondo em Henrique. O Ritmo esteve um pouco letárgico, mas obviamente a jovem protagonista tenha muitas preocupações em cena, no futuro não pode esquecer que ritmo e curva dependem muito dos protagonistas. 

                                           Um acerto a plateia em pé na segunda sala, gente bem acomodada não mergulha tanto. Quanto ao aplique nos cabelos de Clara Devi, cabe uma pergunta, por que Lorenzoni não usa peruca? Certamente por que o ator sabe a diferença entre teatro adulto e teatro infantil.  

                                           Parabéns ao esforço de cada um, e o que cada um colheu. 


Arte é Vida



                                    A Rainha


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