1205- Complexo de Elecktra (tomo XXI)

                             Na década de 60, do século passado, eu ainda era adolescente, surgiram alguns pequenos grupos de teatro em Cruz Alta, motivados certamente pelas grandes Cias. teatrais que visitavam o Teatro Carlos Gomes, localizado em frente a praça General Firmino. Artistas famosos desembarcavam dos trens que chegavam à Gare, que era ponto de encontro de uma sociedade que fervilhava e que hoje infelizmente está abandonada. Bibi Ferreira, Procópio Ferreira, Cia Eva Todor, Cia. Nicete Bruno e outras tantas trupes, passavam as vezes um fim de semana, as vezes dois, com casa lotadas. Isso explicaria porque nos anos seguintes, o jornalista Paulo Pinto e o senhor Amparo Bálsamo, criaram uma Cia de artistas cruzaltense que levou ao palco dentre outros: Édipo de Sófocles. Alguns anos depois, um jovem Luíz heitor Ribas, inovava com um grupo de jovens que tentava dar vida a um teatro que banhava-se em uma linguagem e visão, muito parecidas com a do pesquisador Augusto Boal. 
                                        Foi somente em 1992 que surgiu uma turma de jovens, disposto a criar realmente um grupo, que se propusesse a pesquisar e ser bastante atuante na comunidade. Como qualquer grupo de jovens que surge, ficamos felizes, mas receosos de que fosse algo passageiro, afinal jovens tendem a mudar muito rapidamente de paixões. E de certa forma isso é comprovado visto o número de passantes que fica não mais do que um ano ou dois no Máschara e em qualquer outro grupo que conheço.
                                         Despontou logo de inicio a maravilhosa Dulce Jorge, que em papéis como Cordélia Brasil e Dorotéia, além de Antígona e Lady MAcbeth marcou a historia do teatro do interior. Outros grandes artistas surgiram, e por muitos motivos desistiram no caminho, e embora o Máschara tenha exportado grandes talentos, muito pouco fica guardado de seu trabalho para a posteridade. Em 2000 desponta o diretor Cléber Lorenzoni, com uma energia motivadora, capaz de atuar, dirigir, coreografar, impulsionar muitos que vieram com ele, e confesso que durante muito tempo me frustrei um pouco ao perceber que sempre ele era o único que ocupava esse lugar de prima dona. Quem amis perto chegou até os anos 2010, foi Angélica Ertel, também com uma atuação forte, intensa, impecável. Há sim lugar para todos, no entanto vejo que os jovens querem logo ocupar os podiums, sem se indagar se merecem realmente esses lugares. Não é sobre fazer uma cena bonita, não é sobre usar uma maquiagem inesquecível, ou decorar um longo texto... É sobre personalidade cênica, sobre querer melhorar, crescer, transformar pessoas, abrir caminhos, defender as artes...

“O ator deve trabalhar a vida inteira, 
cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons,
 desenvolver seu caráter; jamais deverá desesperar e 
nunca renunciar a este objetivo primordial: 
amar sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo.”
Constantin Stanislavski
                                     

                    

                           No entanto nos ultimos anos, começaram a se estabelecer talentos, forças que marcam por sua entrega, por sua busca intensa e quase paralela à do diretor. Há alguns anos Alessandra Souza  (que aliás estava na plateia), despontava  como  grande interprete,  e hoje no  palco do Palacinho  revi  um elenco forte, com grandes nomes do atual   teatro cruzaltense. Renato Casagrande,   Fabio Novello e  Douglas  Maldaner marcam por sua intensidade, por sua entrega. E apesar dos   problemas de cena que percebi,  é preciso mencionar a força de Casagrande, a potencialidade de Novello e a disponibilidade de MAldaner. É difícil lutar com nossos vícios, com os desafios que o teatro impõe, estar sempre, sempre, sempre disponível. Até por isso essa senhora nunca se disponibilizou a teatrar. Tomei outro caminho, embora jovem tenha por algum momento me deixado tocar pela arte, rapidamente meus pais me levaram ao altar e me tornei mãe. Hoje em dia certamente escolheria o palco.

                             A atuação de Clara Devi foi digna de uma grande atriz, da grande atriz que se tornou, e que devemos respeitar, por uma trajetória que vem sendo construída há um bom tempo. Romeu Waier esteve fascinante, com um controle cênico perfeito, a caixa fonética em perfeita ressonância, e achei incrível a menção às tantas heroínas do teatro grego. Sempre impliquei com lentes assustadoras com esse clima halloween infantil, mas a prótese de Romeu Waier foi perfeita.  Leonardo Teixeira merece aplausos pela força e energia, não parece que estamos assistindo um novato, ao contrário, parece que estamos a frente de alguém que tem muito teatro dentro de si. A equipe técnica estava tão ensaiada, preparada, que não víamos de onde vinham luzes e sons, perfeito. 

                               Ao final vemos os mais jovens, Ana Clara Kraemer, e Kleberson Ben correndo para lá e para cá, quais formiguinhas, parabéns a esse "estágio" que o Máschara oferece, dando possibilidades de aprendizagem aos jovens que chegam para teatrar.

                             Parabéns ao Máschara pela energia, pelo respeito ao teatro, por não se permitir fazer qualquer coisa de qualquer jeito, isso mostra o cuidado com o público, o respeito pelas plateias. Deveria falar sobre a mise en scène, falarei na próxima análise. 


                            O melhor: Os embates entre mãe e filha

                            O pior: os imprevistos de última hora que pegam a todos de surpresa e que podem colocar todo o trabalho em perigo.


Complexo de Electra- 

Direção e dramaturgia - Cléber Lorenzoni

Elenco- Clara Devi

             Cléber Lorenzoni

            Renato Casagrande

            Fabio Novello

            Douglas Maldaner

           Romeu Waier

           Leonardo Teixeira


Operador de Som - Ellen Faccin

 Contra-regras Kleberson Ben

                        Ana Clara Kraemer

Recepção-       Antonia Serquevitio

                       Carol Guma

Apoio-            Dulce Jorge


  Arte é Vida

                          


                               A Rainha

                                   

Comentários