Quando um grupo de teatro, leva ao palco um espetáculo infantil, têm a certeza que sabe tudo sobre as crianças, e sobre o que elas vão gostar. Certamente muitas vezes está errado e não tem a mínima ideia do que as crianças querem ou gostam. Pois bem, quando um grupo de teatro leva ao palco um espetáculo aos idosos, precisa no mínimo ter a coragem a ideia de que estará levando algo seja útil àquela "fase da vida" que assistirá o espetáculo.
Sobre o palco um espetáculo que é dramático e cômico, um pouco trágico, se pensarmos em tudo o que a vida representa para o ser humano, e nas dores da velhice que caminha para o fim eminente. Mas têm seus momentos farsescos e burlescos. E essa percepção me faz admirar ainda mais o teatro que é insano e sem rótulos. Desde muito jovem eu ouvia grandes mestres do teatro rotularem, como tudo na vida, isso é tal linguagem, essa é outra. -Ora isso é postura de tal tipo de trabalho, essa é postura de outro tipo de teatro. -Ei, esse teatro não combina com aquele teatro! - Como se a arte estivesse classificada dentro de escolas, ou que tivesse que ser feita de um determinado jeito para ser considerada. Não! o teatro precisa ser e é, livre!
O que mais nos toca é o arrojo, a vanguarda, o que nos balança nossos alicerces, o que nos chuta para longe de nossa zona de conforto. Eu tive uma amiga, que agora já faleceu. Ela costumava me chamar para assistir sempre os mesmos dois filmes que tinha em VHS, eu lhe perguntava: -Por que ver o mesmo filme outra vez? - Por que sei que é bom. - Ela dizia. Ora, não quero ver o que sei que é bom, quero ver o que não sei, e fazer minhas próprias considerações.
Dona Flica e seus dois maridos é um espetáculo singelo, tocante, sem grandes objetivos comerciais, mas que nos toca pela historia dessa senhora que parece ter desistido. E não dá para desistir, não enquanto houver ar, enquanto houver sengue, enquanto houver um único estampido de vida. Dona Flica fala da lonjura da vida, e ao mesmo tempo de sua celeridade. A vida é intensa, pela quantidade de momentos com que nos desafia: sucessos, fracassos, ganhos, perdas, amores, traições... Carregar tudo isso no peito, somar tudo isso e alcançar o tempo dos cabelos brancos, quando as junta não mais suportam manter-se na vertical. Tudo isso parece um fardo para a velha anciã interpretada por Lorenzoni.
O texto levemente sarcástico que também leva a assinatura de Cléber, nos fala da realidade dos idosos, assistidos por câmeras enquanto seus filhos ou responsáveis vivem suas vidas ocupadas. Tia Flica não compreende de redes sociais e apps, como tantos idosos também não compreendemos. Eu mesma, só consigo fazer algumas transações bancárias via aparelho de celular, quando assistida por meus netos.
Fabio Novello como Gerônimo, esteve impagável, divertidíssimo. Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni perderam algumas piadas, descobriram outras. Dulce Jorge começou comedida e foi se soltando, somando vigor à cena. A plateia envolveu-se lindamente o quero dizer é que o espetáculo cumpriu sua função.
Há vários tipos de teatro, de atores, de diretores e de dramaturgos, vários tipos de objetivos, vários tipos de interpretações e de públicos. O teatro precisa dar sempre seu melhor para instigar as plateias a quererem mais e melhor. É preciso saber pelo que se está cobrando, é preciso saber por que se está contando essa ou aquela historia. Não é só teatro, é muito mais que isso. Não é sobre eu ou você, ou ele, ou aquele. Não é para ser "bonitinho", "fofo", "pequeno" e repleto de "boas" intenções. É para transcender, é para chocar, é para derrubar preconceitos. O espetáculo Dona FLica está dizendo: -Sim, velhos fazem sexo e devem e podem fazer sexo, e mandar nuds! Velhos não tem obrigação de ser pessoas boas, são como todos nós, apenas seres humanos tentando sobreviver. Precisam de apoio, de auxilio, como quaisquer pessoas de quaisquer idades em quaisquer momentos podem também precisar de ajuda. Simples assim.
Parabéns ao Máschara por saber o que faz sobre o palco.
O melhor: Ver quatro atores prontos sobre o palco. Quatro anciãos.
O pior: A impossibilidade de apresentar o teatro com toda a mise en scene, uma boa luz, etc...
Dona Flica e seus dois maridos
Direção e dramaturgia - Kleber Lorenzoni
Kleber Lorenzoni
Dulce Jorge
Fabio Novello
Renato Casagrande
Contra-regragem Clara Devi (*)
Antonia Serquevitio (**)
Ana Clara Kraemer(***)
Kleberson Ben (**)
Nicolas Miranda (**)
A Rainha
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