1199 -Dona Flica e seus dois maridos (tomo 5)

                                O teatro é sagrado, pois desperta em nós e no outro a reflexão da vida, da existência e da pequenez da humanidade. O palco é um altar, e a palavra hebraica para altar é mizbah, que significa: lugar onde sacrifica. Sempre que atores sobem ao palco, eles sacrificam-se pelo público, oferecem-se para que o público ria às suas custas, para que o público chore ao seu lado, ou o odeie. O público conversa ao telefone enquanto ele se esfalfa sobre o palco. O público tosse, conversa, se meche nas cadeiras. O público o observa durante todo o espetáculo, para talvez criticar sua roupa, sua maquiagem, seu jeito de se movimentar ou a historia que está contando. O ator chega mais cedo ao local, maquia-se, abre mão de sua própria aparência para dar espaço a aparência desse outro ser. O ator oferece portanto a si próprio, e a criação que produziu durante dois, ou três meses. Cobra pouco, mostra-se disposto e humilde a todo tipo de comentários que lhe são disparados... E por que? Não sabemos. Não temos como saber, faz parte do divino, do mistério, dos dogmas sagrados do teatro. 

                            Gosto também da ideia de que palco é monumento, onde ocorre a teofania, ou seja, há nele uma chama, um fogo ininterrupto que arde dia e noite, nos lembrando da necessidade em queimar, arder em expiação aos Deuses. E é assim que alguns atores se sentem, pois dentro deles arde um fogo, uma chama tão forte quanto a vida. Lá embaixo, estão os leigos, aqueles que desconhecem o que acontece sobre o palco. Apenas desfrutam, colhem o produto servido com tanto esforço. É preciso força, é preciso coragem, para subir ao palco todos os dias, por isso mesmo é preciso respeitá-lo. Ver um celular funcionando na coxia, é desrespeitador, humilhante, pois o colega de cena está vivo, entregue e a qualquer momento pode precisar do seu apoio. Atravessar palco e cenários, como se estivesse em uma terra sem lei, ou seja, macular a casa de Dona Flica, ou quaisquer outros mundos que o autor bolou, chega a ser um sacrilégio, se for fazer isso, faça com descrição, rapidamente... 

                           O espaço onde o espetáculo foi apresentado, tratava-se de um salão paroquial, muito bem decorado para um almoço fino, o palco no entanto como sempre, despreparado para teatro, foi entregue ao grupo sem qualquer aparato. Por ser um espaço muito amplo, volumes dos atores foram prejudicados, impossibilitando que a plateia ao fundo tivesse a mesma experiencia. Entre risos e aplausos, os talentos de quatro dos mais maduros interpretes do máschara. Lorenzoni nesse espetáculo da o tom de praticamente toda a narrativa, já que está em cena quase o tempo todo. Dulce Jorge teve alguns esquecimentos mas apesar de pouco ensaio manteve a personagem firme. Sobre o palco ainda, Novello e Casagrande, fortes, intensos e bastante performáticos, nos dando belos contrapontos. 

                            Em alguns poucos momentos ouviu-se os estalos da direção pedindo ritmo, ou seriam outros ruídos quaisquer? Era em suma o único espetáculo do Máschara interpretado em sua totalidade por anciãos.

                           Trilha, cenários, maquiagem, figurinos, tudo perfeito. Com a cara do Máschara e ai fica a pergunta: -Qual a cara do Máschara?


O Melhor: A percepção do prometheu Kleberson Bem em ir aprendendo o oficio e sua tentativa em solucionar pequenos percalços

O Pior: A falta de acústica prejudicando espetáculos.


Dona Flica e seus dois maridos

Direção: Cléber Lorenzoni

Elenco: Cléber Lorenzoni

             Dulce Jorge

              Fabio Novello

             Renato Casagrande

Contra-regragem: Clara Devi (**)

                              Antonia Serquevitio (*)

                             Ana Clara Kraemer (**)

                             Kleberson Ben (**)

                         



A Rainha

                             

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