Sentada aos pés de minha avó ainda muito pequena, minha maior aventura sempre fora ouvir causos antigos, estorias e não historias, da dona carochinha, que aliás para mim sempre pareceu ser uma bruxa. Minha avó punha tocos de angico no fogão a lenha enquanto dava longas pausas em suas tramas misteriosas e fascinantes. Minhas personagens preferidas eram sempre feiticeiras, magas, bruxas velhas; todas elas provenientes de lendas ancestrais. Cresci em uma casa de mulheres, tias, primas, e uma bisavó de quase cem anos. Percebi logo cedo que o feminino rege a vida, traz a luz, acalora, aninha, amansa. A mãe terra gere a vida e vai preparando-nos para um dia nos recolher de volta em seu seio.
Sobre o palco neste domingo, o feminino regia a cena. Fadas, bruxas, mulheres poderosas, dominadores do poder da natureza. Cléber Lorenzoni entende desse poder e gosta desses temas, não é a toa que muitos dos espetáculos do Máschara tratam de grandes mulheres, Dorotéia(1998), Cordélia Brasil (1995), Antígona (2000), e As Balzaquianas (2011). O argumento encontra alguma semelhança com "A Bruxinha que era boa" de Maria Clara machado, mas logo percebemos que Bruxamentos parte de outra fonte. O diretor nos oferece um tema milenar, e ele vem de forma dupla, dois bebes trocados por duendes malandrinhos, a natureza organizando-se, colocando em alinhamento a vida. Não é o laço de sangue que une os seres, até por que todos os nossos sangues partem de um mesmo lugar, somos todos um só. É a afinidade que paira sobre o mundo de Mérida e Folha de Sabugueiro, são os afetos que são postos em jogo.
Cléber Lorenzoni e seu assistente Renato Casagrande conseguiram criar cenas para um grande elenco e embora um tanto longo, foi possível embarcar na historia e mesmo se emocionar.
Aprendi com minha avó, que existem dois tipos de historias, as que nos prendem a atenção e as que nos entediam. Bruxamentos nos prende e muito. Os acontecimentos são rápidos, bem contados e atraentes a adultos e crianças.
O elenco formado por veteranos e principiantes pecava em alguns momentos pela falta de potencia vocal, em outros enchia-nos os olhos pelo trabalho corporal. Vagner Nardes e Evaldo Goulart encabeçam essa lista com um jogo cênico perfeito, piadas bem pontuadas. réplicas ritmadas e construção coesa. Gabriel Giacomini e Sandra Lazzaria embora muito vivos em cena, falaram baixo pondo em risco suas cenas. Os dois grupos mais fortes, bruxas e fadas, estiveram admiráveis. Gabriela, Maria Eduarda, Lavínia, Jenifer e Raquel entraram em cena emocionando a todos com sua poesia e interpretaram em uma redoma de energia muito bonita. O quinteto de bruxas, Nicholas Miranda, Maria Antonia, Kauane Silva, Vagner Nardes e Evaldo Goulart, acrescentam ritmo delicioso ao espetáculo. Fredegunda tem uma grande presença, mas acaba entrando no pique apenas depois da metade do espetáculo. Gosmênia poderia ser mais aproveitada devido a força que a jovem atriz carrega com sua expressão forte e segura. Crinolina é ainda muito jovenzinha mas demonstra estar muito a vontade no palco, o que é importantíssimo para uma boa carreira de atriz. Caolha e Fedorilda já mencionadas roubaram a cena entrando do fundo do auditório, uma ótima sacada da equipe.
Alessandra Souza fez um trabalho muito interessante com sua Elvira e acrescentou ao espetáculo, ao lado de Raquel Arigony, o peso dramático necessário para nos emocionar.
A caracterização das personagens assinada por Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande é belíssima, bem como a iluminação do espetáculo que em um conjunto de cores concedeu poesia e beleza a cada novo quadro.
Laura Hoover e Clara Devi foram os destaques femininos. A primeira por sua delicadeza e entrega como Merida. A segunda por sua presença cênica, e a dedicação para compor uma cena tão antológica, digna de uma atriz madura.
Prólogo e Epílogo foram magistrais, a cena aberta com todos os monstros recebendo a platéia encantou a todos. Os sons dos guizos, os ruídos das folhas, a canção dos lenhadores, cada detalhe acrescentou esmero a produção.

A proximidade do fim apertou nossos corações. As revelações. Antonia Serquevitio tirando Merida da torre. As revelações. O congelamento. O poder feminino. O perdão feminino mais uma vez presente. A escolha de Merida.
Bruxamentos e Encantarias merece ser apresentada novamente, talvez com um elenco menor, talvez com mais ensaios. Mas certamente quem assistiu guardará para sempre a lembrança de uma noite de emoção e conquista.
Alessandra Souza, Vitoria Ramos, Laura Hoover, Clara Devi, Vagner Nardes, Renato Casagrande, Evaldo Goulart e Raquel Arigony
(***)
Todos os outros alunos se saíram bem, certamente os que estiveram mais fracos em cena devem estudar mais e se dedicar bastante. O público merece, vocês mesmos merecem se querem o palco.
Alguns alunos ingressaram há pouco tempo na ESMATE e ainda assim apresentaram-se com coragem e determinação. Outros ausentaram-se em muitas aulas, o que prejudicou suas cenas.
Arte é Vida!!!!
A Rainha
A Rainha
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