Sempre que vou
assistir a um espetáculo teatral, encontro mil motivos para me emocionar, raras
são as vezes que saio irritada de uma encenação, mas acontece, principalmente
quando encontro peças mercenárias, extremamente comerciais e sem respeito pela
plateia. Como não emocionar-se com o ato criativo, com o desprendimento humano,
com os sacrifícios pela arte, com a reflexão do homem para com o homem?
Na encenação que tive
o prazer de assistir no domingo a tarde na ESMATE, os motivos para a emoção
eram vários, um deles, era ver o desabrochar de alguns alunos enquanto eles
eram observados por seus familiares, também emocionados. O teatro pode e deve ser estudado, mas o
verdadeiro momento em que ele se dá, mais que em qualquer outra arte, é ali, em
frente a plateia. No ensaio descobre-se a criatividade, o jogo, as
potencialidades, e etc... Todavia, é com a plateia te observando, naqueles
momentos sagrados que não há como parar, que todo o seu corpo solta uma descarga
de adrenalina e em meio a isso você surge ou como ator, ou como possível e bem
aventurado ser humano “normal”.
As musas pareciam
muito satisfeitas nesse domingo, pois muitos milagres aconteceram. O jogo foi
divertido, e tirando algumas ressalvas, todos estavam vivos e inteiros.

A escolha do mestre foi a Commedia Dell’ Arte, estilo teatral que
teve dupla origem: por um lado na arte da mímica, brotando dos farsistas
populares da época romana, por outro lado herdada das comédias de Plauto e Terêncio.
Um escolha ótima, afinal a Canevas, repletas de personagens, com narrativas
simples porém imbróglios complexos, dão um ritmo ágil e divertido, acrescendo
um colorido totalmente de acordo com a turma tão diversa em cores, gênios, e
maturidades.

Um prólogo muito de
acordo com a proposta nos dava de forma lúdica as regras do jogo: “nada de
celular, e nada de banheiro”; as batidas de Molière através das intervenções de
Briguella, o nervosismo, os figurinos abertos, a questão dos ingressos, o
estrelismo e finalmente o corajoso grito de “MERDA”.
A frente do elenco,
Pantaleão e Briguella (Maldaner e Giacomini), ambos com muita presença e
compreensão de sua função na trama. O primeiro, um pouco afoito, atropelando
algumas falas dos colegas; o segundo muito concentrado, coerente e inteiro, mas
podendo investir mais nos signos corporais. As damas, Princesa Larissa, Madame
Eulália e Senhora Tartáglia (Arigony, Souza e Lazzari), roubaram a cena, cada
uma com suas partituras. A esposa de Pantaleão possivelmente fugira com outro,
já que os velhos ricos, quase sempre eram retratados como cornudos. Ao voltar,
traz a lição do amor, que vale mais que o dinheiro. Raquel Arigony, esteve
lesionada, e ainda se recupera, mesmo assim era de um vigor cênico de encher os
olhos. Que sirva de exemplo aos colegas, de que nada, nada, NADA, serve de
empecilho para honrar o teatro, quando esse for o objetivo. Alessandra Souza, é
atriz, e ficaria muito bem, incrivelmente bem fazendo papel de criada em alguma
comédia ou farsa, da para perceber isso em sua máschara que se desfigura deliciosamente. Sandra Lazzari preencheu
totalmente suas cenas, criou gags divertidíssimas
e conquistou a plateia. A viúva ambiciosa com sua máschara de corujinha, jogou para valer, e quem não compreendeu seu
jogo ficou comendo moscas.

O casal Rosaura e
Florindo podiam ter mais intimidade cênica. Mesmo assim, o filho da senhora
Tartáglia engrandeceu muito suas cenas, valorizou-as com o corpo e conseguiu
desenvolver um “polichinelo mocinho”. Suas aparições a qualquer instante
pedindo comida, acresceram agilidade e vivacidade a esquete. Rosaura casou
perfeitamente com a interprete Clara Devi, seu jeito doce e meigo trouxe todo o
contraponto necessário. No entanto o final de ambos foi prejudicado mais uma
vez pela interpretação do senhor Pantaleão. Felizmente Evaldo Goulart encerrou
a cena abraçando Clara e colocando-a sentada em sua perna, ou correriam o risco
de ficar ali, em pé perdidos no vácuo causado por uma cena difícil que merecia
mais ensaios.
Renato Casagrande como
assistente de direção, vestiu quase toda a esquete, auxiliou muito nos ensaios,
deu ideias, e concebeu uma verdadeira alegoria, que a nível cênico ajudou a
esquete a alcançar um nível visual muito interessante. O poder fidalgo do
senhor Trufaldim, fechou com chave de ouro a encenação da ESMATE.
Assisti em minha já
longínqua existência, seis montagens dentro da linguagem da Commedia Dell’
Arte, é certamente não é tarefa fácil reprisar algo criado em outra época, em
um mundo que tanto mudou. Mas ousaria dizer que as sociedades não mudam tanto,
o orgulho, a ambição, a astucia para sobreviver as auguras, continuam todas
iguais. Em “Aventuras e Trapalhadas na villa Pantaleônica”, alguns
alunos/atores alcançaram grandes proezas. Mas principalmente Evaldo Goulart e
Renato Casagrande me recordaram profundamente a comédia Soggetto. Faltando
apenas mais saltos, sobrevoos, principalmente os criados e o velho Pantaleão.
Vocês são jovens pessoal, saltem, não tenham preguiça!
A Villa Pantaleônica,
talvez muitos não saibam, mas antigamente muitas casas tinham uma plaquinha com
o nome: Villa fulana... Villa Beltrana... Pois era de costume, grandes
propriedades serem chamadas de Villas, pois assim como os antigos feudos,
somavam-se a elas, as casas dos empregados, os celeiros, uma capela,
etc... e ali, viviam dezenas de pessoas.
Por isso mesmo adorei o titulo da Canevas
e parecia enxergar essas casinhas todas de onde surgiam personagens tão
encantadores. Talvez a senhora Tartáglia pudesse ser dona de uma hospedaria,
onde a Princesa Larizza pudesse estar instalada ao chegar do estrangeiro com
sua criada. Talvz pudéssemos ter uma cena de Rosaura choramingando para sua
babá Esmeraldina, o que daria a ideia a criada de roubar a Kinesfera. Talvez
Cerolina pudesse ver Briguella em uma cena e ficar completamente apaixonada por
ele. Talvez pudéssemos ter uma cena das criadas na feira, falando de seus
patrões. Enfim, teatro bom é aquele que vamos para casa pensando e debatendo...
Acho que as Kinesferas poderiam ter tido
um trabalho visual, ficaram muito aquém do cuidado visual com figurinos e
maquiagens.
Espero que os alunos
todos, os que já são atores e os que pretendem ser, tenham gostado, espero que
seus convidados tenham se inspirado, espero que cada um, mesmo que não siga
como aluno, tenha aprendido a valorizar o teatro, e compreendido o quanto é valoroso
e difícil fazer teatro. Enfim, obrigado aos alunos da ESMATE, me diverti muito
e dei boas risadas com uma criação tão singela e cheia de verdades... não
secretas!
Alessandra Souza (***)
Renato
Casagrande (***) plus
Douglas
Maldaner (**)
Evaldo
Goualrt (***) plus
Sandra
Lazzari (***)
Raquel
Arigony (***)
Gabrielly de Freitas (**)
Gabriel
Giacomini (**)
Isadora
Agert (***)
Bruna
Cesar (**)
Clara
Devi (**)
Arte é Vida!
A
Rainha...
Comentários
Postar um comentário