terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ponto de Vista sobre Olhai os Lírios do Campo - 747 (tomo 4)

Um drama com bagagem

                               O palco do SESC de Ijuí na ultima sexta-feira recebeu Olhai os Lírios do Campo, a 26ª montagem do Máschara, e esse melodrama de Erico Verissimo foi recebido com comoção por uma plateia que gosta de ir ao teatro. Iniciando pontualmente, a cena abriu com a tangencial cena da ultima tentativa do corpo médico salvar Olívia. Uma cena forte, belíssima e principalmente muito bem coreografada. No teatro do Máschara nada parece estar sobrando, não há barrigas, tudo parece uma dança, com respeito a qualquer bailarino que leia essa tese.  E não poderia ser diferente, há muito tempo há nas oficinas e ensaios do Máschara uma busca corporal, um tratamento às linhas espaciais da encenação. Alguns atores a carregam com maior vigor, outros nem tanto.
                              Quando um espetáculo inicia, eu sempre procuro através de sua mascara plástica, a bagagem que ele carrega, o que o trouxe até ali. É possível ver nessa encenação a direção de Cléber Lorenzoni, ver seu estilo de composição. Percebe-se isso nos cortes do texto, nas cenas tangenciais, na trilha sonora, na forma como a curva dramática vai sendo estipulada, e na maneira humana com que o mesmo encerra a cena quando Eugênio e Olívia dançam sua ultima valsa. Cléber Lorenzoni parece querer ir mais fundo, é como se declarasse na cena final: vejam, vejam o que aconteceu com Eugênio, não há mais como voltar lá atrás, ao Beco do Império, não há mais como dançar com Olívia, portanto escolham muito bem sua caminhada”. “O teatro precisa ser a expressão ideal da vida de um povo e não mais o simples divertimento de uma noite.” E  por que? Por que atores não passam anos de suas vidas aprimorando suas técnicas, para que o público descarregue sua tensões e vá para casa relaxado e vazio.
                              Eu mesma, em 2006, recordo-me de sair de uma estreia do Máschara e uma senhora do público me confessar discretamente: “pena a performance que esses outros artistas fizeram após o espetáculo, pois eu queria ir quietinha para casa após assistir Esconderijos e passar algumas horas com essas impressões dentro de mim, me revolvendo”. – Essa é a solidificação de uma proposta. É isso que o Máschara busca. Como dizia Bernard Dort, “O teatro não deve ser cenocrático, não é o local onde uma verdade humanista e simbólica é mostrada como válida para todos, para ser aceita ou recusada pela plateia.” O teatro é mais, precisa ser mais, o teatro coloca sobre o palco o homem, e tenta disseca-lo como uma rã em uma aula de anatomia. É isso que Lorenzoni tenta fazer quando nos mostra a infância pobre de Eugênio. A plateia vai construindo psicologicamente a imagem de Eugênio, de forma que ainda que esse homem pareça um tanto patife a uma altura da narrativa, não há como não tocar-se com sua trajetória.
                             A doutora Oívia tão criticada pelos leitores do fim da década de 30, é como um anjo da guarda que aparece na vida do doutor Fontes. E infelizmente precisa morrer para causar uma mudança em Eugênio. A morte aqui é purificadora, alguns morrem para que outros revejam o seu existir. Olívia, em uma visão romântica, em seu plissado rosa, aparece para assombrar Eugênio durante toda a sua corrida ao hospital. Pelo caminho ele encontra o irmão fanfarrão, a mãe estoicista, o pai derrotado, o amigo dândi. Figuras que são muito bem compostas, e que talvez Stanislavski criticasse dentro de sua visão romanceada e ultrapassada de um teatro distanciado da plateia. Claro que para atores com pouca leitura, Stanislavski deve sempre ser respeitado como um semideus, embora nem saibam que apenas o primeiro livro que chegou até o ocidente fora realmente escrito pelo mesmo. O processo de criação é muito mais contundente do que a construção interna que os livros “ditos” de Stanislavski nos pregam. A memória emotiva seria capaz de auxiliar apenas na construção interna de um ser, mas e todo o seu “eu” externo? Ricardo Fenner alinhava bem o seu eu interno, enquanto Raquel parece ter composto Dona Alzira primeiramente por fora, veja bem que não digo superficial, digo por fora. E esse é o grande problema dos pseudo-críticos-teatrais de hoje, achar que tudo o que é por fora é superficial. Quando sabemos que a figura humana é a soma do externo com o interno. Aliás, penso que as mais verdadeiras pessoas, são aquelas que antes mesmo de abrirem a boca já disseram a que vieram. Douglas Maldaner criou vinte por cento por fora e vinte por cento por dentro, falta o mergulho, falta o domínio, falta “ser” Alcebíades. Renato Casagrande é redondo, possivelmente devido ao fato de que também tem uma visão no “espaço tempo”, muito maior de sua personagem. Nestinho acompanha a evolução de Eugênio até a idade adulta e pode ir compondo a criatura, criando o desalinho entre os dois irmãos e assim dando vida a uma personagem que se justifica interna e externamente.
                              O baile na casa dos Cintra foi novamente prejudicado, de forma a polir a semiótica do espetáculo. Interpretes atrasados, figuras que deveria balbuciar sem sentido, deixaram-se perceber demais. Era impossível não perceber onde estavam Angelo e Nestinho durante a festa. Um deles chegou mesmo a se dirigir a Eugênio Fontes. A vida realmente não passa de um baile de mascaras, mas esperar que as figuras da vida do protagonista estivessem na casa de sua esposa, seria um pouco demais.
                             A trilha sonora foi muito bem executada, mas a iluminação do espetáculo ficou aquém do trabalho tão pertinaz de Fabio Novello. Sombras, atrasos nos escapes. Não foi realmente um bom dia para a iluminação de Olhai os lírios do Campo, embora para o público leigo tenha sido havido sim uma coerente escolha de cores, mas por exemplo, acredito que semióticamente, a luz em Lirios deve-se ir escurecendo até a separação de Eugênio e Eunice, logo depois a vida e o hospital se enchem de luz, não havendo mais espaço para sombras.
                          A discussão do casal Fontes foi um dos pontos altos, bem como a visita de Eugênio a Olivia no hospital. Nessa cena o enfermeiro de Evaldo Goulart precisa cuidar para não passar impressão errada quando se demora analisando o doutor Eugênio. Enquanto isso, Fernanda Peres foi se sentindo mais natural em Irmã Isolda, a ponto de ficarmos esperando por mais inserções suas no espetáculo.
                          Para encerrar, preciso elogiar o crescimento sensorial de Ricardo Fenner, e suas possibilidades dramáticas em seu Angelo Fontes.



Para guardar: A presença de Alexandre Giacomini que eternizou mais esse momento em suas fotos.


Cléber Lorenzoni (**)
Alessandra Souza (**)
Ricardo Fenner (***)
Evaldo Goulart (**)
Raquel Arigony (**)
Douglas Maldaner (*)
Gabriel Giacomini (***)
Fabio Novello (*)
Dulce Jorge (***)
Fernanda Peres (**)
Renato Casagrande (**)


                                                        Arte é vida   


                                                         A Rainha

Um comentário:

  1. Nossa! A nossa jornada nesse mundo às vezes não é compreendida pela maioria das pessoas com quem convivemos e quando me dou conta disso eu fico feliz em lembrar que faco parte de um grupo de teatro que me ensinou muita, muita coisa! As nossas idiossincrazias se confundem, nos fazem viajar, pirar e sobressaem-se em várias formas de emocão. Hoje eu sei o quanto nos lutamos por um ideal de fazer teatro em nossa cidade e mesmo sabendo que recebemos tão pouco em troca ainda estamos lá, insistindo, lutando para mostrar aos outros que a arte é necessária para todos se tornarem melhores cidadãos, pessoas melhores e mais compreensíveis com o que acontece a nossa volta.
    O espetáculo Olhai Os Lírios do Campo, é muito bem dirigido por nosso querido diretor e também bem executado pela companhia, o que acontece conosco quando estamos atuando? Acho que nunca como antes me entreguei tanto a emocão deste personagem, parece tudo tão próximo e ao mesmo tempo tudo tão triste... E ao mesmo tempo ao final do espetáculo percebo que o espetáculo aconteceu! O mérito é de todo o grupo com certeza, quando nos entregamos àquilo que fazemos tudo se torna prazeroso é como receber a glória divina ou simplesmente perceber que cumprimos nosso papel de atores que somos. Ainda temos muito a aprender, cada apresentacão tem seu mérito, seus desfalques e defeitos, não somos perfeitos mas esse é o legal de estarmos no palco, nenhuma apresentacão é igual a outra e cabe a nós transformar aquele momento especial a todos os expectadores. O teatro é para ser discutido, executado várias vezes e principalmente sentido! Parabéns a todos os colegas de cena e obrigado por permitirem eu fazer parte desta loucura que nos deixa cada vez mais com sede de continuar!!!

    ResponderExcluir